Papa Leão XIV faz duras críticas à inteligência artificial e denuncia exploração da África
Durante o terceiro dia de sua visita apostólica a Camarões, o papa Leão XIV utilizou um tom firme e contundente para abordar questões tecnológicas e geopolíticas que afetam o mundo contemporâneo. Em discurso proferido na Universidade Católica da África Central, localizada em Yaoundé, o pontífice expressou preocupação com os efeitos negativos da inteligência artificial quando utilizada para fins destrutivos.
Críticas à inteligência artificial e à simulação da realidade
O líder da Igreja Católica alertou sobre o uso da IA para fomentar "a polarização, os conflitos, os medos e a violência", destacando que esta tecnologia não representa apenas um risco de erro, mas uma transformação profunda na relação humana com a verdade. Ele criticou especificamente "a substituição progressiva da realidade por sua simulação", fenômeno que, segundo suas palavras, leva as pessoas a viverem "em bolhas impermeáveis umas às outras".
"Quando a simulação se torna regra, vivemos como dentro de bolhas impermeáveis umas às outras e nos sentimos ameaçados por qualquer um que seja diferente", afirmou o papa durante seu pronunciamento. "É assim que a polarização, os conflitos, os medos e a violência se espalham. Não está em jogo um simples risco de erro, mas uma transformação da própria relação com a verdade", acrescentou, enfatizando a gravidade do problema.
Contexto político e reação a Donald Trump
As declarações do pontífice ocorrem em um momento de tensão política internacional, marcado por críticas ao uso de imagens geradas por inteligência artificial com fins eleitorais. Após o papa ter condenado publicamente a guerra no Irã, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou em suas redes sociais uma imagem na qual aparecia retratado como Jesus Cristo. A ilustração, criada através de IA, foi removida no dia seguinte, mas gerou intensa reação entre setores da direita religiosa americana.
Nos últimos dias, Leão XIV tem adotado um discurso mais assertivo, possivelmente em resposta às provocações de Trump. Na quinta-feira, durante evento em Bamenda, região camaronense marcada por conflitos separatistas, o papa denunciou "o mal causado de fora" por aqueles que exploram os recursos naturais do continente africano.
Denúncia contra exploração e corrupção na África
"O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas mantém-se unido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários!", declarou o pontífice em Bamenda, reforçando seu compromisso com a justiça social. Ele também criticou duramente "o lado obscuro das devastações ambientais e sociais provocadas pela frenética busca por matérias-primas e terras raras", destacando que a África paga um preço elevado pela extração de cobalto, mineral essencial para servidores de informática.
Segundo o papa, este setor é dominado majoritariamente por potências estrangeiras, com destaque para a China. Leão XIV pediu que os jovens africanos "sirvam ao país" em vez de emigrar e afirmou que "a África precisa se libertar da praga da corrupção", apontando para problemas estruturais que impedem o desenvolvimento do continente.
Celebrações religiosas e visita a Camarões
Pela manhã do mesmo dia, o papa celebrou uma missa ao ar livre em Duala, sob forte calor, às margens do Golfo da Guiné. O evento contou com a participação de mais de 120 mil fiéis, número inferior à estimativa inicial do governo, que previa até um milhão de pessoas. No Estádio de Japoma, os presentes entoavam cânticos acompanhados por percussão e agitavam bandeiras do Vaticano, gritando "Viva o papa!" em demonstração de apoio.
Após a celebração, o pontífice visitou pacientes em um hospital católico em Duala antes de seguir viagem para Yaoundé. Sua visita a Camarões está programada para terminar no sábado, completando uma jornada que incluiu passagem pela Argélia e seguirá por Angola e Guiné Equatorial até o dia 23 de abril.
A postura firme de Leão XIV durante esta viagem apostólica reflete sua preocupação com questões globais urgentes, desde os perigos éticos da inteligência artificial até a exploração econômica de nações africanas. Seu discurso ressoa como um chamado à solidariedade internacional e ao uso responsável da tecnologia em benefício da humanidade.



