Trump libera US$ 50 milhões para acelerar testes de psicodélicos no tratamento de TEPT
Trump destina US$ 50 milhões para testes de psicodélicos contra TEPT

Trump assina ordem executiva para acelerar acesso a psicodélicos no tratamento de transtornos mentais

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializou neste sábado (18) uma medida que destina US$ 50 milhões (cerca de R$ 250 milhões) em contrapartida federal para duplicar investimentos em testes clínicos de substâncias psicodélicas. O foco principal é o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), condição que afeta especialmente veteranos de guerra e está por trás de aproximadamente 18 suicídios diários nesta população.

"Se for bom, queremos aprovação rápida", afirma Trump

Durante a cerimônia de assinatura, Trump deixou clara sua posição pragmática: "Se for bom, queremos que seja totalmente aprovado rapidamente. Ou funciona, ou não funciona. Eu imagino que já tenha havido muita pesquisa, pesquisa indireta, talvez, a pesquisa definitiva - pessoas que tomaram". O presidente também fez uma provocação política, questionando se seu antecessor, Joe Biden, teria condições de realizar ação similar.

A ordem executiva, intitulada "Acelerando tratamentos para beneficiar todos os americanos, especialmente nossos bravos veteranos militares", reconhece publicamente a dificuldade histórica dos EUA em lidar com as altas taxas de suicídio e doenças mentais graves no país.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Ibogaína recebe sinal verde da FDA

Entre as substâncias que devem ser beneficiadas, a ibogaína - derivada da raiz da planta africana Tabernanthe iboga - ganha destaque. Por determinação de Trump, a agência reguladora de fármacos e alimentos (FDA) agora está autorizada a aceitar pedidos de licença para que a substância seja registrada como novo medicamento.

A ibogaína já é utilizada no tratamento de dependência química, inclusive no Brasil, e popularizou-se entre ex-combatentes traumatizados, muitos dos quais viajam ao México em busca do tratamento. Republicanos proeminentes como Rick Perry, ex-governador do Texas e ex-secretário de Energia, fazem campanha pela legalização da substância especificamente para TEPT.

Apoiadores de peso na administração Trump

A iniciativa conta com apoio significativo dentro do governo, incluindo figuras como Robert Kennedy Jr., secretário de Saúde, e Marty Makary, diretor da FDA. Na cerimônia de assinatura, estava presente o podcaster Joe Rogan, crítico de algumas políticas de Trump mas cujo programa possui mais de 16 milhões de seguidores - audiência que o presidente parece buscar agradar em ano de eleições legislativas.

Também marcou presença Bryan Hubbard, da ONG Americans for Ibogaine, que declarou emocionado: "A proibição federal da medicina psicodélica nos EUA chegou ao fim. Todos aqueles que lutaram por este dia, ao longo de décadas de luta monumental, sacrifício e sofrimento, podem agora declarar uma vitória seminal em prol da vida, da liberdade e da busca pela felicidade".

Debates sobre apropriação cultural e avanços científicos

O tema ibogaína e veteranos foi discutido na véspera durante a conferência Psychedelic Culture, realizada pelo Instituto Chacruna em São Francisco, Califórnia. Participou do debate o psicólogo brasileiro Bruno Ramos Gomes, que acompanha pacientes tratados com ibogaína no Brasil pelo médico Bruno Rasmussen Chaves.

Segundo Gomes, a discussão levantou questões importantes sobre possíveis apropriações culturais e uma visão limitada que focaria apenas nas vítimas americanas das guerras, ignorando outros afetados pelos conflitos internacionais.

A antropóloga Bia Labate, diretora executiva do Instituto Chacruna, avalia positivamente a iniciativa: "É interessante que a ibogaína, de certa maneira, seja uma substância menos conhecida, que tem menos estigma, carrega menos uma imagem de alucinógeno, de substância maligna [em comparação com LSD]. Isso ajuda a avançar o reconhecimento".

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Futuro de outras substâncias psicodélicas

Ainda não está claro se a ordem executiva acelerará também pesquisas com outras substâncias como MDMA (ecstasy) e psilocibina (presente em cogumelos alucinógenos), atualmente em testes para condições como depressão, ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo.

O ecstasy para TEPT sofreu um revés em agosto de 2024 quando a FDA rejeitou pedido da empresa Lykos. No entanto, a psilocibina para depressão da Compass Pathways já completou testes clínicos de fase 3 e tem potencial para se tornar o primeiro medicamento do tipo aprovado para uso clínico comercial nos EUA - decisão que tende a influenciar regulamentações biomédicas em diversos países.

Curiosamente, a assinatura ocorreu na véspera do Dia da Bicicleta (19 de abril), data que marca a primeira experiência lisérgica intencional, quando o químico suíço Albert Hofmann ingeriu LSD e voltou pedalando para casa em 1943.