STF decide hoje sobre suspensão de penduricalhos que furam teto salarial do funcionalismo
STF julga suspensão de penduricalhos que furam teto salarial

Plenário do STF decide sobre suspensão de penduricalhos que superam teto constitucional

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) realiza nesta quarta-feira, 25 de fevereiro, um julgamento crucial que definirá o futuro dos chamados penduricalhos – remunerações extras pagas a uma elite do funcionalismo público que levam contracheques a superarem em muito o teto constitucional, atualmente fixado em R$ 46.366,19, valor equivalente ao salário dos ministros do Supremo. Os magistrados devem opinar sobre a ratificação da liminar do ministro Flávio Dino, que determinou a suspensão imediata desses benefícios não previstos em lei.

Sequência de eventos que antecedem o julgamento histórico

O momento atual é decisivo para os supersalários do funcionalismo, realidade de uma minoria de servidores, mas com impacto relevante nos cofres públicos. A trajetória recente inclui uma série de medidas significativas:

  • 5 de fevereiro: O ministro Flávio Dino determina que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário da União, Estados e municípios revisem a base legal das verbas indenizatórias pagas a agentes públicos, ordenando a suspensão imediata daquelas não previstas em lei.
  • 18 de fevereiro: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva veta penduricalhos aprovados pelo Congresso que permitiam contracheques acima do teto para servidores do Legislativo e do Tribunal de Contas da União.
  • 19 de fevereiro: Em nova decisão, Flávio Dino proíbe a edição de novas leis que autorizem pagamentos acima do limite constitucional.
  • 23 de fevereiro: O ministro Gilmar Mendes determina que verbas indenizatórias só podem ser pagas a integrantes do Poder Judiciário e do Ministério Público quando previstas em lei aprovada pelo Congresso, inibindo a criação de benefícios via decisões administrativas.
  • 24 de fevereiro: Lideranças do STF, Senado, Câmara, TCU e outros órgãos se reúnem e decidem formular uma proposta de regra de transição para os penduricalhos, visando o respeito à Constituição e aos limites do teto.

O que está em jogo no julgamento do Supremo Tribunal Federal

Segundo Bruno Carazza, professor associado da Fundação Dom Cabral e autor do livro O País dos Privilégios – Volume 1, caso a decisão de Dino seja ratificada, o Congresso Nacional receberá um comando do Supremo para regulamentar o dispositivo constitucional que estabelece quais pagamentos podem superar o teto do serviço público. Embora a Constituição determine que nenhum servidor pode ganhar mais que os ministros do STF, o texto inclui uma brecha: pagamentos de indenizações não estão sujeitos ao teto.

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Essas indenizações deveriam reembolsar custos incorridos no trabalho, como despesas com alimentação, transporte e hospedagem em missões. No entanto, tribunais e órgãos – principalmente do Judiciário, Ministério Público e Legislativo – têm classificado adicionais como indenizações, permitindo que furam o teto e escapem do imposto de renda. Em 2025, o ganho médio líquido de um magistrado ativo foi de R$ 81,5 mil mensais, 76% acima do teto, enquanto no Tribunal de Justiça de São Paulo chegou a R$ 122,8 mil, 165% acima do limite.

Exemplos de penduricalhos em xeque no sistema público

Carazza destaca cinco benefícios que estão sob escrutínio:

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  1. Licença compensatória ou 'escala 3x1': Magistrados e membros do MP ganham um dia de folga a cada três trabalhados com acúmulo de função, benefício convertível em pagamento, criando uma remuneração tripla que burla o teto.
  2. Venda de até 20 dias de férias e adicional de 1/3 em dobro: Com direito a 60 dias de férias anuais, podem converter até 20 dias em pagamento, gerando adicional dobrado. Em 2023, o custo com indenização de férias não gozadas foi de R$ 1,5 bilhão, e o adicional de férias custou R$ 5,3 bilhões aos cofres.
  3. Auxílio-alimentação de até R$ 4 mil e auxílio-educação: Alguns tribunais pagam mais de R$ 4 mil mensais em auxílio-alimentação, equivalente a 10% da remuneração de um magistrado, e auxílio-saúde que supera R$ 10 mil. Há ainda auxílio-educação para filhos até 24 anos.
  4. Pagamentos retroativos: Benefícios do passado foram incorporados à remuneração, com tribunais concedendo pagamentos retroativos por decisões administrativas, sem amparo legal. Em 2023, custaram R$ 3,1 bilhões, quase um terço do orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia.
  5. Honorários de sucumbência: Valores pagos pela parte perdedora em ações judiciais, que antes iam para os cofres públicos, agora são destinados a advogados públicos. Em 2025, totalizaram R$ 4,7 bilhões, com uma servidora recebendo R$ 708 mil extras.

Expectativas e reações ao julgamento do STF

Carazza defende que é preciso resgatar a autoridade do teto remuneratório e coibir a criatividade de órgãos que criam pagamentos sem previsão legal, descumprindo a Constituição. Ele considera que a decisão de Dino promove uma discussão necessária sobre padrões mínimos no serviço público. No entanto, associações ligadas às carreiras jurídicas questionam a liminar, argumentando que as verbas estão amparadas em leis e decisões administrativas, e destacam defasagem salarial e sobrecarga de trabalho. Enquanto isso, magistrados já falam em greves e paralisações contra a suspensão dos penduricalhos, tornando o julgamento desta quarta-feira um marco na busca por transparência e equidade no funcionalismo brasileiro.