Prefeitura de SP copiou prontuários em apuração sobre aborto legal no Hospital Cachoeirinha
Prefeitura copiou prontuários em apuração sobre aborto legal

Prefeitura de São Paulo copiou prontuários em investigação sobre aborto legal no Hospital Cachoeirinha

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) declarou nesta sexta-feira (6) que pretende recorrer da decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que ordenou a retomada do serviço de aborto legal no Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, localizado na Zona Norte da capital paulista. Durante a inauguração de um novo parque municipal na Zona Leste, Nunes criticou a interferência judicial em questões que considera técnicas.

Críticas à interferência judicial

"É lógico que vai ter recurso. Não tem outro caminho a não ser falar para as pessoas: cuidem daquilo que lhe compete", afirmou o prefeito. "Juiz tinha que ser muito mais reservado na sua área jurídica e não ficar discutindo questões que são exclusivamente da área técnica", completou Nunes, defendendo a autonomia dos profissionais de saúde.

O prefeito insistiu que a gestão municipal nunca interrompeu o serviço de aborto legal na cidade, apenas realizou uma transferência para outras quatro unidades hospitalares. Segundo ele, a decisão foi técnica, visando otimizar recursos para zerar uma fila de mais de mil mulheres aguardando cirurgias de endometriose no Hospital da Cachoeirinha.

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Decisão judicial e multa milionária

O Tribunal de Justiça de São Paulo negou um recurso da prefeitura e determinou a retomada imediata do serviço de aborto legal no Hospital Cachoeirinha. Em outubro de 2025, a 9ª Vara de Fazenda Pública já havia condenado o município a pagar uma multa de R$ 24,8 milhões por não garantir o acesso ao aborto legal para mulheres vítimas de estupro.

Os desembargadores da 5ª Câmara de Direito Público consideraram que a interrupção do serviço representa "violência misógina" e "retrocesso na justiça reprodutiva". O relator do caso, desembargador Eduardo Prataviera, destacou em seu voto que há extensa documentação comprovando a negação sistemática do direito ao aborto legal em vários hospitais municipais.

Negativa de atendimento e nova vitimização

Segundo o magistrado, profissionais de saúde têm negado atendimento às vítimas sob alegação de falta de equipe ou infraestrutura, sem realizar o encaminhamento adequado para outras unidades. "Ao contrário, em atos ilegais, promovem nova vitimização das mulheres vítimas de estupro, incutindo terror psicológico e emocional", afirmou Prataviera.

A Defensoria Pública apresentou provas de recusa de atendimento em diversos hospitais da rede municipal, incluindo:

  • Hospital da Mulher SECONCI-SP
  • Hospital Fernando Mauro Pires da Rocha
  • Hospital e Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha
  • Hospital Municipal Dr. Cármino Caricchio
  • Hospital Municipal Tide Setubal
  • Hospital Municipal Mario Degni

Multa diária e descumprimento reiterado

A juíza Simone Gomes Rodrigues Casoretti, da 9ª Vara de Fazenda Pública, estabeleceu a multa de R$ 24,8 milhões correspondendo aos 497 dias em que a ordem judicial foi descumprida pela gestão Nunes - equivalente a R$ 50 mil por dia. A magistrada caracterizou a conduta da prefeitura como "omissiva" e demonstrando "desobediência institucional reiterada com nítido desprezo pelos direitos fundamentais".

O valor da multa será destinado ao Fundo Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente para desenvolver projetos específicos voltados a vítimas de estupro e garantia do acesso ao aborto legal.

Contexto do caso

O Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha teve seu serviço de aborto legal encerrado em dezembro de 2023 pela gestão Ricardo Nunes. A unidade era considerada referência para interrupção da gestação e uma das poucas no estado de São Paulo que atendia casos mais complexos.

A prefeitura alegou em seu recurso que o serviço foi remanejado para outras unidades municipais e estaduais, mas o tribunal considerou que isso não corresponde à realidade dos fatos. A Procuradoria Geral do Município informou que o caso está em segredo de justiça e irá avaliar os recursos cabíveis.

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A ação judicial foi apresentada pela deputada federal Luciene Cavalcante, pelo deputado estadual Carlos Giannazi e pelo vereador Celso Giannazi, todos do PSOL, que denunciaram a violação sistemática dos direitos das mulheres vítimas de violência sexual na capital paulista.