CNJ mantém aposentadoria compulsória de juiz da PB por omitir relacionamento com advogado
CNJ mantém aposentadoria de juiz da PB por relacionamento com advogado

CNJ mantém aposentadoria compulsória de juiz da Paraíba que omitiu relacionamento com advogado

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu manter a aposentadoria compulsória do juiz Antônio Eugênio Leite Ferreira Neto durante sessão extraordinária do plenário realizada na terça-feira (3). A decisão foi tomada após análise do caso em que o magistrado não declarou suspeição ao julgar processo de um advogado com quem mantinha relacionamento íntimo, envolvendo investigações sobre facção criminosa.

Votação e argumentos do corregedor-geral

Na votação do plenário, foram registrados 7 votos a favor da manutenção da aposentadoria compulsória e 5 votos contrários. O corregedor-geral do CNJ, ministro Mauro Campbell, argumentou em seu voto que o juiz deveria se afastar de qualquer causa que "potencialize a alteração da sua posição, sob pena de comprometer a dignidade da função pública".

Campbell destacou que "a clientela do advogado estava envolvida em organização criminosa, tráfico de drogas e homicídio" e que "a independência e a imparcialidade não são privilégios do juiz, e sim garantias que o magistrado tem o dever de observar, preservar e guardar em favor do jurisdicionado".

Divergência do relator e contexto do caso

O relator do processo, conselheiro Ulisses Rabaneda, votou pela parcial aplicação da aposentadoria compulsória, entendendo que não houve comprovação de que o juiz tenha concentrado investigações criminais para benefício do advogado com quem mantinha relacionamento. "Há divergência parcial entre as conclusões do tribunal e as provas produzidas", afirmou Rabaneda.

O caso remonta a 2024, quando o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) aplicou inicialmente a pena de aposentadoria compulsória ao juiz Antônio Eugênio Leite Ferreira Neto, da 2ª Vara da Comarca de Itaporanga. Ele foi condenado por violação aos princípios da imparcialidade, decoro e moralidade pública.

Investigações e alegações da defesa

De acordo com o Ministério Público da Paraíba (MPPB), interceptações telefônicas colhidas durante investigações revelaram que membros da organização criminosa se referiam ao advogado como pessoa muito amiga do juiz e capaz de "desmanchar processos criminais" contra a facção.

A acusação afirmou que o magistrado deixou de reconhecer sua manifesta suspeição e sugeriu que estaria compartilhando informações de investigações sigilosas com o advogado, que as repassaria para integrantes da organização criminosa.

Durante a sessão do CNJ, a defesa do juiz alegou que ele estaria sendo vítima de homofobia na análise do caso pelo TJPB. O g1 entrou em contato com a defesa, mas não obteve retorno até a última atualização da reportagem.

Histórico do magistrado

Antônio Eugênio Leite Ferreira Neto é o mesmo juiz que, em abril de 2022, causou polêmica ao condenar um homem por ter processado o Estado depois de ter sido preso por engano. Em sua decisão à época, ele declarou a improcedência da ação e ainda condenou o autor a pagar 10% do valor da causa para fins de custas processuais.

Os conselheiros que votaram pela manutenção da aposentadoria compulsória foram: Edson Fachin, Mauro Campbell Marques, Jaceguara Dantas, Guilherme Feliciano, Silvio Amorim, João Paulo Schoucair e Daiane Nogueira de Lira. Já os votos vencidos incluíram Ulisses Rabaneda (relator) e Marcello Terto, que defendiam aplicação parcial da remoção compulsória, além de Rodrigo Badaró e Alexandre Teixeira (que propunham afastamento por 30 dias) e Fabio Esteves (que sugeria afastamento por 90 dias).