Encontro estratégico precede decisão judicial sobre situação do ex-presidente
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro deixou o gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes na segunda-feira (23) com confiança renovada. Segundo relatos de aliados presentes, ela acreditava que o magistrado tomaria uma decisão favorável para transferir Jair Bolsonaro (PL) para prisão domiciliar – expectativa que se concretizou na terça-feira (24), quando Moraes autorizou a medida após ouvir apelos de colegas do STF, políticos e da própria ex-primeira-dama.
Segundo encontro menos tenso que o primeiro
A reunião, que durou aproximadamente 40 minutos, representou o segundo encontro entre Michelle Bolsonaro e o ministro neste ano para tratar da situação prisional do ex-presidente. Pessoas próximas à ex-primeira-dama afirmam que ela saiu do gabinete com otimismo, mesmo sem compromissos formais por parte de Moraes.
"Michelle descreveu a conversa como positiva e destacou que o ministro foi educado durante todo o encontro", revelou uma fonte próxima. "Ela também observou que esta segunda reunião foi consideravelmente menos tensa do que a ocorrida em janeiro."
Durante o diálogo, Moraes informou à ex-primeira-dama que havia recebido diversas informações sobre o estado de saúde do ex-presidente e que daria atenção especial ao pedido de prisão domiciliar por motivos humanitários.
Discussão sobre o melhor local para custódia
Segundo relatos de conversas posteriores, o ministro questionou Michelle sobre qual seria a melhor opção para Bolsonaro: permanecer preso em casa ou na unidade conhecida como Papudinha, onde teria assistência médica disponível 24 horas por dia. A ex-primeira-dama foi enfática em sua resposta, afirmando que, em sua avaliação, o melhor caminho para o marido seria a prisão domiciliar.
Jair Bolsonaro está internado em um hospital particular de Brasília desde o dia 13 de março, após passar mal no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal. O ex-presidente cumpre pena por tentativa de golpe de Estado e foi diagnosticado com pneumonia bacteriana por broncoaspiração. A equipe médica responsável pelo caso anunciou na quarta-feira (25) que ele receberá alta na sexta-feira (27), seguindo diretamente para sua residência.
Contexto dos encontros anteriores
Michelle Bolsonaro já havia sido recebida por Alexandre de Moraes em seu gabinete no STF em janeiro. Na ocasião, a ex-primeira-dama atribuiu ao efeito de medicamentos o episódio em que Bolsonaro violou a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, ocorrido em novembro. Ela detalhou questões relacionadas à dosagem e interação entre os remédios, argumentando que o ex-presidente não teria mexido no dispositivo se ela estivesse presente no momento.
O encontro da segunda-feira também foi realizado a pedido de Michelle. De acordo com aliados do ex-presidente, ela buscava a oportunidade de comunicar pessoalmente ao magistrado que Bolsonaro não poderia ficar sozinho durante a noite devido ao risco de broncoaspiração.
Implicações políticas e familiares
Líderes do centrão e da direita política avaliam que, em regime de prisão domiciliar, Bolsonaro terá condições mais favoráveis para participar da campanha presidencial de seu primogênito, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A expectativa é que, estando mais confortável em casa, o ex-presidente possa conversar diariamente com o filho sobre estratégias eleitorais.
Analistas políticos também projetam que Michelle Bolsonaro poderá exercer influência ainda maior nas decisões políticas do marido, uma vez que apenas ela, as duas filhas do casal e os médicos do ex-presidente terão acesso irrestrito à residência.
Regras de visitação estabelecidas
Flávio Bolsonaro, que se tornou advogado do pai no processo, já havia se encontrado com Alexandre de Moraes no dia 17 de março, acompanhado do advogado Paulo Cunha Bueno. O senador classificou a conversa como objetiva e afirmou que serviu para expor todas as preocupações relacionadas ao estado de saúde do pai.
Na decisão que autorizou a prisão domiciliar, Moraes estabeleceu regras específicas para visitas. Os advogados poderão visitar o ex-presidente todos os dias da semana, com agendamento prévio e permanência máxima de 30 minutos. Já os filhos – condição que inclui Flávio Bolsonaro – terão acesso à casa às quartas-feiras e sábados, por até duas horas em cada visita.
Fortalecimento da imagem conciliadora
Apesar da ofensiva pela transferência de Bolsonaro ter envolvido também o senador Flávio e outros políticos, como o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos), parlamentares avaliam que Michelle Bolsonaro saiu fortalecida do episódio, projetando uma imagem conciliadora perante o Judiciário.
O relatório do núcleo de custódia da Polícia Militar do Distrito Federal revelou que a médica de plantão na Papudinha havia apontado "risco de morte" para Bolsonaro antes de sua transferência para o hospital DF Star em 13 de março. Na segunda-feira, a Procuradoria-Geral da República manifestou-se favoravelmente ao pedido de prisão domiciliar protocolado pela defesa.
"Ao ver da Procuradoria-Geral da República, está positivada a necessidade da prisão domiciliar, ensejadora dos cuidados indispensáveis ao monitoramento, em tempo integral, do estado de saúde do ex-presidente", escreveu o procurador-geral Paulo Gonet em seu parecer.



