Pela primeira vez desde o retorno do republicano ao poder, os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, se reuniram a portas fechadas na Casa Branca. O encontro, ocorrido na quinta-feira (7), durou quase três horas e foi descrito como mais informal do que uma visita oficial de Estado. Inicialmente previsto para março, o encontro foi adiado diversas vezes devido à escalada da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Conversa produtiva e sem confronto
Diferente do protocolo tradicional de Trump, que costuma falar com a imprensa antes das reuniões reservadas, o presidente norte-americano conversou longamente com Lula. A extensão das conversas levou ao cancelamento da coletiva de imprensa prevista. Após o encontro, Lula falou sobre o assunto na embaixada do Brasil em Washington, enquanto Trump descreveu o brasileiro nas redes sociais como o "dinâmico presidente brasileiro" e classificou a agenda como "muito produtiva".
O mestre e doutorando em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Jhonathan Mattos, avaliou o encontro como positivo. "Trump e Lula sempre tiveram uma relação ambígua, mas o Trump sempre reconheceu o brasileiro enquanto uma liderança. E parece que a conversa de hoje foi bem pacífica", afirmou à Sputnik Brasil.
Temas discutidos: terras raras, tarifas e segurança
Entre os temas discutidos estavam a exploração de terras raras, tarifas de importação contra produtos brasileiros, geopolítica, governança internacional e segurança pública. Lula informou a Trump que o Congresso aprovou uma nova legislação para regulamentar a exploração de terras raras no Brasil, reforçando a soberania nacional e ampliando a segurança jurídica para parcerias internacionais. O presidente brasileiro também afirmou que o Brasil não vetará quem terá como parceiro no desenvolvimento do setor.
Em relação às tarifas, Lula citou a ausência de empresas norte-americanas em licitações internacionais no Brasil, como as de ferrovias, ao contrário do que ocorre com a China. Segundo Mattos, "o Lula é muito pragmático" e busca atrair investimentos norte-americanos para equilibrar a relação entre as potências.
Na área de segurança pública, o governo brasileiro evitou que os EUA classifiquem organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho como terroristas, o que poderia abrir margem para intervenções diretas. Embora o tema não tenha sido debatido diretamente, Lula afirmou que foram discutidas estratégias conjuntas de combate ao crime organizado.
Impacto político interno
Para Mattos, a reunião desmonta o mito de que Lula seria um adversário ideológico irreconciliável de Trump. "Isso enfraquece a narrativa bolsonarista", avaliou. A fala de Lula sobre soberania também atinge diretamente setores ligados ao bolsonarismo, que tendem a usar o tema no processo eleitoral.
Multilateralismo e crítica ao isolacionismo
O especialista destacou o peso geopolítico das declarações de Lula sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU e críticas ao isolacionismo norte-americano impulsionado pelo tarifaço. "Quando o Lula critica o isolacionismo, ele não está apenas criticando o Trump, mas também fazendo um chamado para que os Estados Unidos voltem a atuar como um participante importante dentro do sistema internacional", argumentou Mattos.
A duração do encontro, quase três horas, foi considerada incomum para o padrão de Trump com outros líderes estrangeiros, demonstrando interesse estratégico dos EUA em ampliar os laços com o Brasil.
Relação estratégica entre Brasil e EUA
A pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp, Lívia Milani, afirmou à Sputnik Brasil que o encontro demonstra que, apesar das diferenças ideológicas, Brasil e EUA mantêm uma relação estratégica. "São dois chefes de Estado que conseguem conversar e que não precisam necessariamente entrar em conflito", disse.
Milani avaliou que Lula busca reforçar internamente a imagem de que mantém acesso direto à Casa Branca e capacidade de negociação em temas relevantes, especialmente em um momento de aproximação do calendário eleitoral. Ela ressaltou que os laços entre os dois países são históricos e densos, envolvendo governos, setores econômicos, diplomáticos e institucionais.
Sobre a segurança pública, a especialista afirmou que Lula tenta ampliar a cooperação bilateral sem aderir à lógica de "narcoterrorismo" defendida por setores ligados a Trump, pois uma militarização mais intensa poderia abrir espaço para violações de direitos humanos e ampliar tensões na região.



