Monarquia iraniana também foi violenta: herdeiro busca liderar transição após 50 anos
Monarquia iraniana violenta: herdeiro quer liderar transição

Monarquia iraniana também foi violenta: debate reacende após 50 anos da Revolução

Quase cinquenta anos após a Revolução Islâmica que derrubou a monarquia no Irã, o príncipe Reza Pahlavi, herdeiro da antiga dinastia real, afirmou publicamente que está disposto a liderar uma transição política no país. Esta declaração, no entanto, é vista como improvável por especialistas em política internacional e reacende comparações históricas entre o regime do xá e a atual república islâmica.

Imagem liberal versus realidade violenta

O governo monarquista do xá Mohamed Reza Pahlavi tem sido lembrado por alguns setores como mais liberal, principalmente pela abertura ao Ocidente e pelos costumes mais flexíveis nas grandes cidades iranianas. Durante esse período, mulheres podiam circular publicamente sem véu e usar roupas ocidentais como minissaias - um contraste marcante com a rígida polícia de costumes do regime atual, que persegue e até mata mulheres que não seguem os códigos de vestimenta islâmicos.

Porém, essa imagem convivia com outra realidade bem diferente: a de uma monarquia absolutista que exercia violência sistemática contra a maioria da população pobre. "Esse mesmo governo do xá, que tem essa imagem liberal, essa imagem de ter sido um governo tolerante, é governo que tinha a polícia política, que tinha prisões, que tinha torturas, que tinha centros de tortura em que pessoas desapareciam", explicou o historiador Filipe Figueiredo em entrevista ao programa Fantástico.

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Os Pahlavi: 100 anos de poder e intervenção estrangeira

A dinastia Pahlavi tomou o poder através de um golpe militar há exatamente um século. O primeiro monarca, Reza Shah Pahlavi - avô do atual candidato ao trono - permaneceu no comando até a Segunda Guerra Mundial. Numa posição geográfica estratégica entre a União Soviética e o Império Britânico, o Irã foi ocupado por ambas as potências durante o conflito mundial.

Os britânicos mantinham interesse especial no acesso ao petróleo iraniano, ameaçado em 1951 quando os iranianos elegeram um líder social-democrata que buscava nacionalizar os recursos petrolíferos. "Os iranianos elegem um líder social-democrático que vai buscar a nacionalização do petróleo como meio de garantir o desenvolvimento do país, como meio de garantir divisas para o desenvolvimento e industrialização do Irã", detalha o historiador Figueiredo.

Dois anos depois, com apoio britânico, o xá deu um golpe de Estado e depôs o primeiro-ministro democraticamente eleito. "Como consequência desse golpe, nós vamos ter uma concentração de poderes na mão da monarquia, na mão do xá", completa o especialista.

Quem apoia o retorno da monarquia?

A atual crise do regime islâmico fez ressurgir a figura de Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã. Porém, o apoio à restauração monárquica apresenta divisões claras:

  • O principal apoio vem da diáspora iraniana, dos exilados que deixaram o país com a família real após a revolução
  • Dentro do Irã, a situação é mais complexa e multifacetada
  • O analista Paulo Hilu aponta que a monarquia teria apoio de alguns setores específicos, como comerciantes
  • A falta de memória histórica favorece essa perspectiva, já que a maioria da população nasceu após a revolução de 1979

"Na verdade, o príncipe não é nenhuma alternativa, ele representa justamente esse descrédito geral das figuras políticas dentro do Irã. Tendo dito isso, ele voltar sobre bombas americanas israelenses e tanques americanos israelenses, obviamente, não vai garantir com ele nenhuma legitimidade", analisa o coordenador do núcleo de estudos do Oriente Médio na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Perspectivas para o futuro iraniano

O debate sobre o possível retorno da monarquia ocorre num contexto de crescente insatisfação popular com o regime teocrático atual. Enquanto alguns veem na figura de Reza Pahlavi uma alternativa secular e pró-Ocidente, especialistas alertam para os riscos de romantizar um período histórico marcado por:

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  1. Autoritarismo político e concentração de poder
  2. Violência de Estado através de polícia política e tortura
  3. Dependência de potências estrangeiras
  4. Desigualdade social profunda

A complexidade da situação iraniana continua a desafiar análises simplistas, exigindo compreensão histórica detalhada tanto do período monárquico quanto dos quase cinquenta anos de república islâmica. O futuro do país permanece incerto, com múltiplas forças políticas competindo por influência numa sociedade profundamente dividida entre tradição e modernidade, religião e secularismo, isolamento e abertura internacional.