Crise na Venezuela: oportunidade para Lula mediar após diálogo de Trump
Lula pode mediar crise na Venezuela após Trump

A recente conversa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu colega colombiano, Gustavo Petro, colocou em evidência mais uma vez o delicado equilíbrio diplomático na América do Sul, com foco na crise venezuelana. O diálogo ocorre em um momento de avanço nas negociações entre os Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, e o governo interino da Venezuela, criando um novo tabuleiro geopolítico para o Brasil.

O novo cenário entre Washington e Caracas

Segundo análise do cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da ESPM, já existem avanços concretos no diálogo entre Washington e Caracas. O professor destacou que o ex-presidente americano Donald Trump chegou a elogiar publicamente a presidente interina venezuelana, considerando-a mais flexível que seu antecessor.

Um dos sinais mais evidentes dessa reaproximação é o escoamento da produção de petróleo venezuelano para os Estados Unidos. Este movimento acontece em um contexto complexo, marcado por bloqueio econômico e pressão militar sobre a costa do país. "A Venezuela hoje tem poucas alternativas. Há bloqueio, pressão externa e também uma cobrança interna por algum tipo de abertura", afirmou Ramirez.

Os obstáculos profundos e os riscos para o Brasil

O especialista aponta que o maior entrave para uma transição não está apenas na figura do presidente deposto, mas na estrutura enraizada do regime chavista. Ramirez lembra que a Venezuela é o único país da América do Sul cujas Forças Armadas têm formação explicitamente marxista, um processo que antecede Hugo Chávez.

"O chavismo está entranhado nas instituições: Exército, burocracia do Estado, Judiciário, Legislativo e até empresas estatais", explicou. Por isso, qualquer transição que atenda aos interesses americanos – com abertura econômica e redução da influência bolivariana – tende a ser lenta, complexa e sujeita a fortes resistências internas.

Este cenário traz riscos indiretos para o Brasil, dada a proximidade histórica e ideológica entre o governo Lula e o regime venezuelano. Embora essa relação tenha esfriado após o processo eleitoral confuso do ano passado e críticas públicas do Itamaraty, o histórico coloca o Brasil em uma posição sensível. "Esse histórico coloca o Brasil numa posição sensível se houver um colapso das negociações", avaliou o professor.

A janela de oportunidade para a mediação brasileira

Paradoxalmente, o mesmo contexto que gera riscos também abre uma oportunidade estratégica. Com as relações restabelecidas entre Brasília e Washington após o fim das tensões tarifárias e com elogios recentes de Trump ao governo Lula, o Brasil pode se apresentar como um interlocutor confiável para mediar a crise.

"O Brasil tem condições de atuar como mediador e ajudar a apaziguar os ânimos, pressionando por uma transição democrática e pacífica na Venezuela", afirmou o cientista político. Para ele, essa mediação se tornaria especialmente relevante e necessária caso o diálogo direto entre americanos e venezuelanos enfrentar impasses significativos.

Impactos econômicos e a visão do mercado

No campo econômico, Ramirez vê efeitos limitados para o Brasil no curto prazo. A queda dos preços do petróleo e a desvalorização de ações do setor refletem mais a incerteza global sobre como a transição venezuelana será conduzida do que um choque direto na economia brasileira.

"O mercado internacional olha para a Venezuela e se pergunta como, de fato, essa transição será feita", resumiu. Com uma estrutura chavista profundamente enraizada, a resposta dificilmente será rápida – e é justamente essa indefinição que mantém os investidores em estado de alerta.

Entre riscos e oportunidades, o Brasil caminha sobre uma linha tênue. O país pode ser afetado por um eventual fracasso diplomático entre Washington e Caracas, mas também pode emergir como um ator central em um dos tabuleiros geopolíticos mais sensíveis do continente, caso consiga se posicionar como mediador eficaz na busca por uma solução para a crise venezuelana.