O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com a imprensa enquanto se dirige ao helicóptero Marine One para viajar a Iowa. Esta cena, capturada em imagem, contrasta com as críticas severas apresentadas em um relatório divulgado nesta quarta-feira (4) pela organização não governamental internacional Human Rights Watch.
Avanço autoritário no mundo
O primeiro ano do novo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos representou um avanço autoritário ao mundo, de acordo com o documento. A conclusão faz parte do relatório mundial de 2026, que analisa a situação dos direitos humanos em mais de cem países. No texto, a HRW questiona se os direitos humanos sobreviverão à era Trump e afirma que o mandato do presidente se destaca por um flagrante desrespeito e por graves violações desses direitos.
Além de Trump, o relatório cita Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China, como governantes que interferem e ameaçam a ordem mundial. Segundo a ONG, 72% da população mundial vivem atualmente sob regimes autoritários, um dado alarmante que ressalta a urgência do tema.
Trump: perigo global
O relatório elenca diversas ações de Trump que colocam em perigo o sistema global de direitos humanos. Entre as principais críticas, estão:
- Ataque à Venezuela e captura de Nicolas Maduro;
- Deportação e envio de imigrantes para prisões em El Salvador, com ataques de agentes federais de imigração, o ICE;
- Ataque à independência judicial dos Estados Unidos;
- Minar a confiança no processo eleitoral;
- Corroer a privacidade e usar o poder do governo para intimidar oponentes políticos;
- Retirar os EUA do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas;
- Destruir programas de assistência alimentar e subsídios à saúde;
- Retirar proteções a pessoas trans e intersexuais, entre outras ações.
A política externa de Trump, segundo a ONG, abalou os alicerces da ordem internacional regida por leis que buscam promover a democracia e os direitos humanos, mesmo que de forma imperfeita. O documento destaca ainda que Trump encorajou líderes autoritários e minou aliados democráticos, repreendendo alguns líderes eleitos da Europa Ocidental enquanto expressava admiração pela extrema direita nativista da Europa.
Como os países devem reagir?
A ONG também aponta caminhos para conter a onda autoritária. De acordo com a análise, resistir a esse avanço exigirá uma estratégia conjunta da sociedade civil, das instituições e dos governos. Para enfrentar essa tendência, os governos que ainda valorizam os direitos humanos, juntamente com movimentos sociais, sociedade civil e instituições internacionais, precisam formar uma aliança estratégica para conter retrocessos, afirma o diretor-executivo da HRW, Philippe Bolopion.
Uma resposta possível, segundo o documento, seria uma oposição mundial à postura de Trump e dos líderes de Rússia e China para preservar a ordem internacional regida por leis. É fundamental que democracias se unam em uma aliança estratégica para preservar a ordem internacional baseada em regras e em tratados, cujo objetivo sempre foi a resolução pacífica de conflitos e a ação coletiva para responder aos desafios da humanidade, como a mudança climática, afirma César Munõz, diretor da HRW no Brasil.
Segundo ele, o Brasil tem papel essencial, pelo seu peso internacional como uma voz importante do Sul Global e sua tradição de defesa de valores democráticos e do multilateralismo.
Brasil: enfrentamento a facções e preocupação com segurança
No capítulo sobre o Brasil, a HRW defende uma reformulação nas políticas de segurança pública do país de forma geral, com destaque para as facções criminosas e sua entrada, direta ou indireta, no Estado. A ONG sugere que as autoridades brasileiras conduzam investigações aprofundadas e baseadas na inteligência para identificar vínculos entre criminosos e pessoas que fazem parte do poder público.
As facções cooptam agentes públicos para proteger as suas atividades ilícitas. Essa infiltração no poder público às vezes também envolve políticos, principalmente a nível local. Essa é uma face muito perigosa do crime organizado, pois pode corromper as instituições por dentro, afirma o diretor da ONG.
O relatório destaca ainda que a segurança será questão importante na eleição para presidente do Brasil, em outubro. O assunto lidera os temas de maior preocupação dos brasileiros, segundo pesquisas de opinião mais recentes. De acordo com levantamento da Ipsos-Ipec desta segunda-feira (2), 41% dos brasileiros consideram crime e violência as principais preocupações no país, reforçando a relevância do debate sobre políticas públicas eficazes.



