França usa ironia no X para rebater críticas de Marco Rubio e desinformação
França usa ironia no X contra críticas e desinformação

França adota ironia nas redes sociais para combater desinformação e críticas internacionais

Quando o chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Marco Rubio, criticou publicamente a cultura europeia nesta semana através da plataforma X, a resposta francesa foi rápida, afiada e carregada de ironia. A equipe da chancelaria francesa utilizou a conta online oficial "French Response" para replicar, publicando na quinta-feira, dia 22, uma tabela comparativa de indicadores-chave de nível de vida. Os dados apresentados mostram claramente que a União Europeia supera os Estados Unidos em diversas áreas fundamentais, que vão desde a expectativa de vida até os níveis de dívida estudantil.

Uma nova frente de batalha no campo informativo

"French Response", que em português significa "Resposta Francesa", é uma conta mantida no X em língua inglesa e representa o mais recente recurso estratégico adotado pela França para se defender contra uma maré crescente de desinformação online. Desde o mês de setembro, esta iniciativa tem combatido ativamente informações consideradas falsas, provenientes não apenas de contas russas, mas também de fontes americanas, incluindo a própria Casa Branca do ex-presidente Donald Trump.

O porta-voz oficial da diplomacia francesa, Pascal Confavreux, explicou que a informação se transformou em "um novo campo de batalha" no cenário global. "Escolhemos ocupar o espaço aumentando o volume e levantando a voz", declarou ele, referindo-se especificamente a esta conta que, embora ainda seja uma gota no oceano se comparada aos mais de 230 milhões de seguidores do proprietário do X, Elon Musk, já acumula mais de 100 mil seguidores.

Diplomacia com humor e dados concretos

A conta é alimentada por um grupo diversificado que inclui diplomatas experientes, ex-jornalistas e verificadores de fatos especializados. Ela esteve particularmente ativa durante esta semana, enquanto líderes mundiais se reuniam no prestigiado Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. O contexto ficou ainda mais interessante quando o presidente francês, Emmanuel Macron, confrontou publicamente Donald Trump na terça-feira, usando óculos de aviador chamativos – que, segundo sua equipe, eram necessários devido a uma hemorragia ocular.

Macron afirmou, com determinação, que seu país não gosta "de valentões". No dia seguinte, os jornais internacionais estavam repletos de imagens do líder francês com seus óculos, e diversos comentaristas compararam Macron ao personagem Maverick, protagonista da famosa franquia de filmes "Top Gun", interpretado pelo ator Tom Cruise. A conta "French Response" não perdeu a oportunidade e comemorou as manchetes com uma publicação irônica: "Quando o mundo faz a sua resposta francesa por você", escreveu, logo após Trump zombar publicamente dos óculos de Macron.

Estratégia replicada nas embaixadas francesas pelo mundo

Esta estratégia de resposta ágil e irônica não se limita à conta central. Ela também é adotada de forma ativa no nível das embaixadas da França espalhadas ao redor do globo. Na quarta-feira, por exemplo, a representação diplomática francesa na África do Sul "desmontou" ao vivo as falsas acusações formuladas pela embaixada russa, que acusava a França de possuir ilegalmente o território de Mayotte, localizado no oceano Índico.

"Olá, como estão as coisas hoje @EmbassyofRussia?", questionou a conta da embaixada da França em inglês. E continuou: "Para sua informação, Mayotte votou em 1974 para continuar sendo um território da República Francesa (...) Vocês sabem o que é um referendo, eleições, democracia? Palavras que devem soar estranhas para vocês". A resposta misturou fatos históricos com um tom de provocação educada.

Os riscos de adotar táticas de 'trollagem' diplomática

No entanto, especialistas em segurança global alertam para os perigos inerentes a esta abordagem. Ruslan Trad, analista do laboratório de análise digital do Atlantic Council (DFRLab), explica que existe uma linha tênue entre enfrentar os "trolls" – termo utilizado na internet para designar aqueles que provocam, insultam ou espalham desinformação de forma intencional – e ser percebido como um deles.

"Quando canais diplomáticos oficiais adotam táticas de trollagem, validam implicitamente a queda do ecossistema informativo em direção a um discurso baseado na provocação", afirmou Trad em entrevista à AFP. O especialista considera que "igualar o tom dos adversários corre o risco de criar uma equivalência, na mente do público, entre instituições democráticas e atores da desinformação".

Respostas criativas a ameaças inusitadas

A conta "French Response" também demonstrou sua criatividade ao responder a declarações inusitadas. No início de janeiro, por exemplo, um usuário americano afirmou que seu presidente se apoderaria facilmente da França após "conquistar a Groenlândia e o Canadá". A resposta francesa foi imediata e bem-humorada: "Última hora: a Estátua da Liberdade, supostamente vista nadando de volta através do Atlântico. Disse que 'preferia os termos e condições originais'", brincou, em uma clara referência à estátua que a França presenteou aos Estados Unidos no final do século XIX.

Esta semana, Donald Trump recuou de suas ameaças anteriores de se apoderar à força do território autônomo dinamarquês da Groenlândia, aceitando iniciar conversas diplomáticas. Mesmo assim, o episódio ilustra como o ambiente informativo atual exige respostas rápidas, muitas vezes carregadas de ironia e dados concretos, para combater narrativas falsas e defender posições nacionais no palco global.