EUA preparam acusações criminais contra presidente interina da Venezuela
O governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, está utilizando a ameaça de um processo criminal para pressionar a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, a continuar acatando as ordens norte-americanas. De acordo com informações exclusivas da agência de notícias Reuters, baseadas em quatro fontes anônimas familiarizadas com o assunto, procuradores federais americanos reuniram possíveis acusações de corrupção e lavagem de dinheiro contra a líder venezuelana.
Investigação concentrada na PDVSA
A investigação, conduzida pelo Ministério Público dos Estados Unidos em Miami, foca no suposto envolvimento de Delcy Rodríguez em esquemas de lavagem de dinheiro da estatal petrolífera venezuelana PDVSA. Três das fontes confirmaram que as atividades investigadas ocorreram entre os anos de 2021 e 2025, abrangendo um período significativo da gestão venezuelana.
As autoridades americanas não se limitaram à preparação da minuta de acusação. Segundo as mesmas fontes, apresentaram a Rodríguez uma lista com pelo menos sete ex-dirigentes do partido governista, seus associados e familiares que o governo Trump deseja que sejam presos ou mantidos sob custódia venezuelana para possível extradição.
Contradições nas declarações públicas
Enquanto as ameaças judiciais avançam nos bastidores, publicamente Donald Trump tem elogiado a relação com a Venezuela. Em declarações a repórteres na saída da Casa Branca no dia 13 de fevereiro, o presidente americano afirmou estar planejando visitar o país sul-americano, ainda sem data marcada, e definiu a relação com Rodríguez como "ótima".
"Sim, já reconhecemos Rodríguez como representante oficial. Estamos lidando com eles e, na verdade, neste momento eles estão fazendo um ótimo trabalho. Eu diria que a relação que temos agora com a Venezuela é nota 10", declarou Trump quando questionado pela Reuters sobre o reconhecimento oficial do governo interino.
Conflito entre cooperação e autonomia
Apesar das declarações positivas de Trump, Delcy Rodríguez demonstrou publicamente seu descontentamento com a interferência norte-americana. No dia 25 de janeiro, durante discurso a trabalhadores do setor petrolífero no estado de Anzoátegui, a presidente interina afirmou estar "farta" das ordens vindas de Washington.
"Chega de ordens de Washington sobre os políticos na Venezuela. Deixemos que a política venezuelana resolva nossas diferenças e conflitos internos. Chega de potências estrangeiras", declarou Rodríguez, em claro sinal de resistência às pressões americanas.
Contexto pós-captura de Maduro
A situação atual remonta à operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do ex-presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em janeiro de 2026. Imediatamente após a remoção de Maduro do poder, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela nomeou Delcy Rodríguez como presidente interina para "garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da Nação".
As Forças Armadas venezuelanas, através do ministro da Defesa Vladimir Padrino, endossaram a decisão em pronunciamento em rede nacional, confirmando que Rodríguez permaneceria no cargo por 90 dias. Em sua primeira declaração após a captura de Maduro, a presidente interina pediu calma à população e afirmou que a Venezuela "nunca será colônia de nenhuma nação", classificando o episódio como um "sequestro" promovido pelos Estados Unidos.
Pressão econômica e política
O petróleo venezuelano tornou-se peça central nesta relação tensa. Trump anunciou publicamente que o governo interino de Rodríguez estaria sob tutela americana, com os Estados Unidos assumindo controle sobre as reservas petrolíferas do país. Em post na rede Truth Social, o presidente americano comemorou: "O petróleo está começando a fluir e grandes quantias de dinheiro, não vistas há muitos anos, em breve ajudarão muito o povo da Venezuela".
Entretanto, em entrevista à revista The Atlantic, Trump deixou claro as consequências da não cooperação: "Se ela não fizer o que é certo, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro". A declaração reforça a estratégia de pressão que agora inclui a ameaça de processo criminal.
Convite e considerações finais
Paradoxalmente, enquanto as ameaças judiciais avançam, Rodríguez revelou em entrevista à NBC News que recebeu convite para visitar os Estados Unidos durante a visita do secretário de Energia americano, Chris Wright, a Caracas. A presidente interina afirmou que seu governo está considerando aceitar o convite assim que estabelecerem os termos de cooperação.
Delcy Rodríguez, advogada de 55 anos que ocupa cargos no governo venezuelano desde 2003, conhecida por seu perfil combativo, agora se encontra no centro de uma complexa disputa geopolítica onde as ameaças criminais se misturam com declarações públicas de cooperação, enquanto tenta navegar entre a pressão norte-americana e a defesa da soberania venezuelana.



