Ponte das Correntes em Budapeste iluminada após derrota histórica de Viktor Orbán
A icônica Ponte das Correntes de Budapeste, que conecta as regiões de Buda e Peste sobre o majestoso rio Danúbio, apresentou um cenário incomum no último domingo. Em vez dos habituais turistas ocupados com selfies, a estrutura histórica foi banhada pelas cores verde, branco e vermelho da bandeira húngara. A iluminação especial marcou um momento histórico: a derrota eleitoral do primeiro-ministro Viktor Orbán após impressionantes 16 anos consecutivos no poder.
Celebração histórica nas ruas de Budapeste
Os apoiadores do vitorioso Péter Magyar e de seu partido Tisza descreveram o momento como uma reconquista do próprio país. "Nós conseguimos", declarou Magyar em seu discurso de vitória. "Derrubamos o regime de Orbán; juntos libertamos a Hungria. Reivindicamos nossa pátria!"
A atmosfera nas ruas de Budapeste era eletrizante. Multidões de eleitores, incluindo muitos que votavam pela primeira vez, dançavam pelas estreitas vias da capital húngara nas primeiras horas da segunda-feira. "Chorei quando marquei o X na minha cédula", confessou Zofia, uma eleitora emocionada. "Ainda não consigo acreditar. Mas nós conseguimos!"
Fim de uma era política
A derrota de Orbán representa uma reviravolta irônica na história política húngara. O líder da direita radical, que alcançou fama em 1989 ao exigir a retirada das tropas soviéticas durante os últimos dias da União Soviética, viu sua própria retórica ser usada contra ele durante a campanha eleitoral. Críticos destacaram seu longo e estreito relacionamento com o presidente russo Vladimir Putin.
A participação eleitoral atingiu níveis recordes, superando o controle férreo que Orbán exercia sobre a mídia estatal e as mudanças no sistema eleitoral implementadas para favorecer seu partido Fidesz. Apesar da enorme influência que seus aliados e familiares exerciam nas estruturas de poder da chamada "democracia iliberal" húngara, o resultado foi uma derrota esmagadora nas urnas.
Repercussões internacionais significativas
A queda de Orbán representa um golpe considerável para Vladimir Putin, que perdia um aliado estratégico dentro da União Europeia. O líder húngaro havia atrasado consistentemente a implementação de sanções contra a Rússia após a invasão da Ucrânia e bloqueado um crucial empréstimo de US$ 105 bilhões da UE para Kiev.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky foi rápido em parabenizar a Hungria, expressando expectativa por um "trabalho construtivo" conjunto. Em Bruxelas, onde Orbán era conhecido como "o Obstrutor", poucos lamentarão sua saída. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que a Hungria havia "escolhido a Europa".
Descontentamento interno e mudança de rumo
Ao longo dos anos, Orbán havia alienado diversos setores da sociedade húngara: a esquerda política, a comunidade LGBTQ+, e muitas mulheres que sentiam seus direitos serem corroídos pela agenda "pró-família, pró-papéis de gênero tradicionais" do governo. Mas o golpe final veio quando até seus apoiadores mais fiéis começaram a abandoná-lo em massa.
"Ele nos decepcionou. Decepcionou o país. Nos enganou", afirmou Gyárfás Oláh, ex-prefeito local e antigo entusiasta de Orbán. Nos últimos anos, a inflação disparou e o padrão de vida caiu significativamente na Hungria, enquanto o círculo íntimo do primeiro-ministro parecia enriquecer cada vez mais.
O novo líder: Péter Magyar
Péter Magyar, o político de 45 anos que liderou a oposição vitoriosa, é uma figura complexa. Ex-membro do partido Fidesz de Orbán, Magyar compartilha muitas posições conservadoras com seu antecessor, mas prometeu reformas abrangentes para "derrubar o regime de Orbán", incluindo o enfraquecimento dos laços com a Rússia e a reconstrução de pontes com a Europa.
Durante a campanha, o carismático político participava de quatro a seis comícios diários, sempre acompanhado pela bandeira húngara. Muitos analistas argumentam que os eleitores precisavam de um candidato de centro-direita para se unirem antes de considerar abandonar Orbán definitivamente.
"Esta noite celebramos. Amanhã, mãos à obra!", declarou Magyar, com um sorriso radiante, cercado por apoiadores eufóricos no final da noite de domingo. O novo primeiro-ministro só se tornará oficialmente líder quando o presidente da Hungria lhe pedir para formar um governo, processo que deve levar aproximadamente um mês.
A maioria dos húngaros afirma que suas prioridades imediatas são internas: melhorar a economia em declínio, reduzir a inflação e o custo de vida, e recuperar os serviços públicos deteriorados. O caminho à frente será desafiador, mas para muitos na Ponte das Correntes naquela noite histórica, representava finalmente uma nova direção para a Hungria.



