Conflito no Irã já causa impactos globais: combustíveis e fretes marítimos disparam
Apesar de sua inferioridade militar, o Irã possui uma arma econômica poderosa na guerra atual: a capacidade de desestabilizar o mercado global de petróleo e gás. O regime dos aiatolás explora a dependência mundial dessas fontes energéticas, que suprem mais da metade do consumo global, criando uma nuvem de prejuízos que já começa a se espalhar pela economia internacional.
Ataques a rotas estratégicas elevam custos logísticos
Nos dias seguintes aos bombardeios sofridos dos Estados Unidos e Israel, o Irã atacou instalações petrolíferas de países árabes vizinhos, causando interrupções parciais na produção do Iraque, Arábia Saudita e Catar. Mais grave ainda, as forças iranianas atingiram quatro navios-tanque na rota do Golfo Pérsico e anunciaram o fechamento do Estreito de Ormuz, artéria vital por onde passam 20% das exportações mundiais de petróleo e gás.
Embora o fechamento total seja inviável, a travessia tornou-se tão perigosa que seguradoras cancelaram contratos ou aumentaram drasticamente seus prêmios. O frete marítimo quintuplicou, afetando especialmente a China, maior cliente da região. Empresas de navegação estão evitando rotas tradicionais, optando por desvios mais longos e caros pelo sul da África.
Impactos diretos na economia brasileira
A perspectiva de redução no fornecimento de petróleo elevou o preço do barril Brent para 85 dólares, maior valor desde julho de 2024. Segundo cálculos da corretora Warren, se o petróleo se estabilizar em 90 dólares, isso adicionaria 0,5 ponto percentual à inflação anual brasileira. A desvalorização do real, outra consequência do conflito, acrescentaria mais 0,5 ponto percentual.
"Nesse cenário, com petróleo mais caro e o real desvalorizado, pode-se ter um acréscimo de 1 ponto percentual à inflação, reduzindo bastante as expectativas de corte de juros por parte do Banco Central", explica Luis Felipe Vidal, chefe de estratégia macroeconômica da Warren.
Agronegócio brasileiro entre os mais vulneráveis
O setor agropecuário nacional deve sofrer significativamente com uma guerra prolongada. Custos e riscos de transporte prejudicam exportações brasileiras para o Oriente Médio, podendo reduzir vendas de carnes, milho e soja. Simultaneamente, encarecem fertilizantes importados do Irã, como ureia e amônia.
O preço do diesel também tende a aumentar, elevando custos de transporte interno. Embora a Petrobras possa lucrar com a alta do petróleo devido ao status exportador do Brasil, dificilmente ampliaria sua produção no curto prazo para suprir demandas internacionais.
Dilema global para autoridades monetárias
Autoridades monetárias em todo o mundo, incluindo nos Estados Unidos, enfrentam um dilema complexo: juros altos são instrumentos eficazes para combater inflação por demanda, mas funcionam mal quando a alta de preços resulta de queda na oferta, como ocorre com petróleo e gás atualmente.
Donald Trump prometeu medidas para restabelecer o trânsito pelo Estreito de Ormuz, oferecendo garantias financeiras e escolta militar, mas ainda não está claro se isso acalmará investidores e importadores. Enquanto isso, uma guerra prolongada no Irã continua a espalhar suas chamas pelo comércio e economia globais, com consequências cada vez mais tangíveis para consumidores e empresas em múltiplos continentes.



