Governo Lula planeja recusa diplomática a convite de Trump para Conselho da Paz de Gaza
Brasil prepara 'não' cuidadoso a Trump sobre Gaza

O delicado equilíbrio diplomático do Brasil frente ao convite americano

O governo brasileiro trabalha nos bastidores para elaborar uma recusa cuidadosa ao convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para integrar o recém-criado Conselho da Paz voltado à reconstrução da Faixa de Gaza. A avaliação predominante no Planalto é que a iniciativa "não tem futuro" e carrega riscos diplomáticos significativos para os interesses nacionais.

Um cálculo político de alta precisão

A posição foi resumida pelo assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Celso Amorim, que apontou a recusa prévia de países como Canadá, Espanha e Suécia como sinal da fragilidade do projeto. Apesar disso, a decisão brasileira ainda não foi formalizada — justamente porque o momento exige cálculo político fino.

Segundo o cientista político Adriano Cerqueira, o problema central não é apenas o Conselho da Paz em si, mas o contexto diplomático em que ele surge. O Brasil vinha ensaiando uma reaproximação com Washington, considerada internamente uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após tensões recentes envolvendo tarifas e articulações políticas no exterior.

Os riscos estratégicos por trás do convite

Na avaliação de especialistas, o Conselho da Paz proposto por Trump está diretamente ligado aos interesses estratégicos americanos na região do Oriente Médio. A iniciativa prevê um papel central dos Estados Unidos na reconstrução do território palestino, o que, na prática, pode significar uma nova forma de ocupação e gestão internacional.

Esse desenho entra em choque com a tradição diplomática brasileira de defesa da autodeterminação dos povos e com o discurso histórico do Itamaraty em relação à questão palestina. Além disso, o formato do conselho tende a afastar organismos multilaterais tradicionais, como a ONU, algo que gera desconfiança entre diplomatas brasileiros.

A complexa relação com o Irã

Um dos pontos mais sensíveis é o alinhamento recente do Brasil com o Irã em fóruns internacionais. Para a política externa americana — especialmente sob Trump — Teerã é um adversário estratégico central. Integrar um conselho liderado pelos Estados Unidos para atuar em Gaza poderia ser interpretado como um movimento hostil ao Irã.

"Para o governo brasileiro, aderir ao conselho significaria afrontar diretamente um parceiro com o qual hoje mantém proximidade diplomática", afirma o professor Cerqueira. Esse fator, sozinho, já tornaria a participação brasileira altamente improvável.

Estratégia de recusa e consequências possíveis

A recusa, na visão de analistas, não deve gerar uma ruptura imediata nas relações bilaterais, mas pode esfriar a relação. Os Estados Unidos têm como prioridade geopolítica, neste momento, o hemisfério ocidental, e esperam maior alinhamento dos países da região.

A estratégia do Planalto é diplomática:

  • Evitar confronto direto
  • Ganhar tempo nas negociações
  • Enquadrar a recusa como decisão técnica e multilateral

O argumento central deve ser a defesa de soluções negociadas no âmbito das instituições internacionais já existentes. Na prática, o governo Lula tenta equilibrar princípios históricos da política externa brasileira com a necessidade de manter canais abertos com Trump — um exercício de pragmatismo que pode definir o tom da relação bilateral nos próximos meses.

A recusa fina e bem calibrada se mostra crucial para preservar tanto os valores da diplomacia brasileira quanto os avanços na reaproximação com Washington, em um momento de delicadas negociações internacionais.