O Globoplay lança nesta quinta-feira (30) a série documental 'Territórios - Sob o Domínio do Crime', uma produção do Jornalismo da Globo que investiga como as facções criminosas expandiram seu domínio, redesenharam fronteiras e se infiltraram no Estado brasileiro. A série, composta por seis episódios, reúne depoimentos de moradores, policiais, especialistas e autoridades que debatem os desafios da segurança pública no país. Este é o centésimo documentário original do Globoplay.
Expansão e domínio territorial
De acordo com o capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Daniel Souza, 'na verdade, só existe o crime porque o Estado permite ou permitiu em algum momento. E aí, quando perde o controle, a gente acaba, às vezes, pensando ou tentando atribuir responsabilidade quando, na verdade, é um processo muito longo, muito mais antigo'. Já Roberto Sá, secretário de Segurança do Ceará, afirma: 'Com todo respeito a quem pensa diferente, tenho hoje uma compreensão de que nosso país não percebeu, e se percebeu, não tratou, por um motivo que eu não sei dizer, adequadamente com o rigor que deveria, esse crescimento e fortalecimento das organizações criminosas'.
A investigação do Jornalismo da Globo percorreu 27 cidades no Brasil e em outros países da América do Sul, realizando 110 entrevistas. O documentário mostra como o crime organizado se estruturou ao longo de décadas no controle territorial, no tráfico de drogas e armas, na atuação dentro dos presídios e na relação cada vez mais profunda com a economia e a política. Moradores, especialistas e autoridades explicam como esses grupos ampliam lucro e poder enquanto dominam e impõem regras a milhões de brasileiros.
Um morador relata: 'É viver com medo, né? De dentro de casa para o trabalho. Ninguém pode andar nas ruas, tudo cheio de barricada, entendeu? É horrível, sabia? Horrível'. Outra moradora complementa: 'O nosso cotidiano é à base de medo. Medo de entrar uma bala perdida pela janela, medo de deixar as crianças brincando no quintal'. Valmor Racorti, comandante do Policiamento de Choque de São Paulo, destaca: 'Cabe a gente compreender que a segurança pública é direito e responsabilidade de todos. Todos nós falhamos'. Roberto Sá acrescenta: 'O Estado-nação está falhando com essas pessoas, com todo mundo que está perdendo vida, saúde e patrimônio por nós não conseguimos ainda encontrar uma maneira de sermos mais efetivos'.
Facções criminosas no Brasil
Com base em informações da Secretaria Nacional de Políticas Penais, o documentário revela a expansão do crime organizado: 88 facções criminosas estão presentes no sistema penitenciário de norte a sul do Brasil. As principais são o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital), que nasceram dentro dos presídios nos dois principais estados do país e avançam pelas fronteiras nacionais e internacionais. Carlos Bruno Gaya da Costa, promotor de Justiça do Gaeco - MPSP, afirma: 'Não tem como você tentar combater um problema tão complexo olhando ele de uma só forma. Você precisa desse modelo de atuação em que você enfrente eles na seara administrativa, na seara penal, na seara civil e social também'. O diretor do documentário, Gustavo Gomes, explica: 'O nome 'Territórios' tem a ver com isso: muitas vezes, muita gente vive sob o jugo de organizações criminosas, reféns disso, e a gente precisa tratar desse assunto'.
Comando Vermelho no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, o Comando Vermelho utiliza o domínio armado para avançar sobre territórios e controlar quem vive e trabalha neles. Um morador descreve: 'Cesta básica, gás, internet... Eles têm o pão congelado deles aí também que fornecem, instalação de luz eles também fazem. Eles entram no estabelecimento para conferir se só tem a mercadoria deles lá. Se está comprando aquele produto ali, tem que ser só o deles'. Felipe Freitas, secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, explica: 'A lógica da dominação territorial é controlar quem pode e quem não pode certas coisas. Quem pode e quem não pode circular. Quem pode e quem não pode escolher com quem vai namorar. Quem pode e quem não pode ir para a festa. E cobrar de diferentes formas por quem pode e por quem não pode'. Fábio Galvão, superintendente regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro, alerta: 'Hoje, você já tem a maior facção do Rio alastrada no Brasil inteiro, em quase todos os estados. Então, assim, o grande problema disso, além de ter alastrado, é que o Rio de Janeiro se tornou local de refúgio para lideranças do Brasil'.
PCC em São Paulo
Em São Paulo, o PCC adotou uma estratégia diferente de controle territorial e de negócios, sem ostentação de armas pesadas em favelas e sem cobrança direta por produtos e serviços nas comunidades. Carlos Bruno Gaya da Costa afirma: 'Todos os lugares onde o PCC identificou uma oportunidade de negócio, eles agiram ali como agentes econômicos racionais. Eles têm tentado penetrar cada vez mais na sociedade e dificultar cada vez mais a nossa investigação, dificultar cada vez mais que a gente identifique ali o que é o dinheiro lícito e o que é o dinheiro ilícito'. A facção diversificou negócios e ampliou sua influência. Ivana Davi, desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, destaca: 'Hoje o PCC migra necessariamente para lavagem de dinheiro. Ele migra necessariamente para corrupção ativa e corrupção passiva para poder fluir todo esse dinheiro que ele ganhou com o crime organizado. O PCC, hoje, é considerado a oitava maior facção do mundo'.
Corrupção e alianças
O documentário revela que esses grupos se fortalecem com redes de corrupção, alianças empresariais dentro da economia formal e associação com políticos. Carolina Grillo, do Grupo de Novos Ilegalismos - UFF, afirma: 'Em nenhum lugar do mundo, nenhuma organização criminosa consegue atuar sem cooptar agentes do Estado'. O coronel do Exército Alessandro Visacro complementa: 'Você não tem contrabando, você não tem tráfico de drogas, tráfico de armas, tráfico de seres humanos, sem a corrupção'. Fábio Galvão ressalta: 'Essas organizações criminosas têm um poder muito grande financeiro. Os de gravata também são muito perigosos'. Gabriel Feltran, especialista em segurança pública, observa: 'As pessoas estão sempre achando que o crime está aqui, que a sociedade boa está aqui, que o crime está se infiltrando. E o que eu estou dizendo é que essas coisas estão assim'.
Desafios e caminhos
Diante desse avanço, a pergunta central é: como enfrentar o crime organizado? O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Gaeco MPSP, afirma: 'O sistema de justiça e o sistema de segurança pública nesse país é caótico, ele é absolutamente descoordenado'. José Mariano Beltrame, ex-secretário de Segurança do Rio, declara: 'Isso passou da hora de juntar esforços e não tratar a segurança como uma máquina calculadora, calculando quantos votos isso vai me dar daqui a quatro anos'. O documentário mostra que existem caminhos para enfrentar o problema, mas as reações do Estado estão desorganizadas. Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, afirma: 'Não há uma solução mágica, não há uma regra de ouro que fale: olha, vamos fazer isso que está solucionado o problema'. Carolina Grillo destaca: 'Não é à toa que a polícia descreve o seu próprio trabalho como enxugar gelo. Essa sensação que os policiais têm de que, nossa, a gente prende, mata e não muda nada. Sim. Prende, mata e não muda nada'. Daniel Souza, capitão da PM-RJ, contrapõe: 'Se a gente não enxugar gelo, a gente vai morrer afogado. Tem que ser o enxugar gelo, de fato. Tem que ter o combate à organização, tem que ter a tomada territorial como uma das frentes de combate'. Ricardo Belestreri, coordenador do Insper, sugere: 'E essa polícia, uma vez entrando, você tem que entrar logo na sequência com aquilo que a gente chama de saturação social. O que é saturação social? Saúde de qualidade, educação de qualidade, profissionalização, áreas de lazer, escolas de liderança juvenil'. Robinson Barreirinhas, secretário da Receita Federal, defende: 'A gente tem que enfrentar também esse desafio cultural de enfrentar essas existências e colocar todos em uma mesma mesa: os órgãos de Estado no âmbito federal, mas também os estaduais e municipais'. Em todas as entrevistas, um consenso: um país mais seguro no futuro depende do que será feito a partir de agora. O coronel Alessandro Visacro reflete: 'A gente debate o Brasil de 1970. Nós somos incapazes de olhar para o Brasil de 2070'. Um morador questiona: 'O Estado não está aqui. A polícia não está aqui. O saneamento não está aqui. Ninguém está aqui. Como é que você vai querer criar uma criança aqui? E qual futuro que ela vai ter vendo isso tudo? O tempo todo, durante anos?'
A série 'Territórios' já está disponível no Globoplay, e o primeiro episódio está aberto para não-assinantes da plataforma.



