O caso Master se transformou em material radioativo na política brasileira. Com uma extensa lista de personagens da esquerda e da direita enredados na teia de conexões de Daniel Vorcaro, está em curso uma disputa para empurrar para o adversário o maior nível de proximidade com o escândalo. O presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, tornou-se o principal alvo dos últimos dias devido a um enredo cinematográfico.
Diálogos publicados pelo Intercept entre o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-banqueiro revelaram a intimidade entre eles. O senador cobrava parcelas atrasadas de um contrato de financiamento para um filme em homenagem ao pai. Desde novembro do ano passado, quando Vorcaro foi preso pela primeira vez, Brasília é cenário de um thriller de suspense. Não há prova de ilegalidade no negócio, mas o envolvimento de um candidato ao Planalto com o ex-banqueiro preso por uma das maiores fraudes financeiras do país foi suficiente para provocar um terremoto político.
O patrocínio e a tempestade política
As investigações apontam que o Banco Master utilizou expedientes fraudulentos que deixaram um rombo de mais de R$ 50 bilhões no mercado. Não há dúvida de que um golpe dessa magnitude só poderia ser concretizado com o apoio de gente influente nos Três Poderes. Vorcaro, preso desde março, negocia uma delação premiada, mas ainda não conseguiu emplacar o acordo.
A história do cinema envolvendo Vorcaro e Flávio veio à tona na quarta-feira, 13 de maio. Naquele dia, a pesquisa Genial/Quaest mostrou Lula e Flávio empatados no segundo turno, com o petista numericamente à frente. Flávio visitou o presidente do STF, Edson Fachin, para promover diálogo, enquanto Lula assinava medida provisória para atenuar o impacto do reajuste dos combustíveis. A disputa transcorria normalmente até a reportagem do Intercept.
De acordo com a publicação, Flávio pediu dinheiro a Vorcaro para pagar contas de um filme sobre Jair Bolsonaro, previsto para estrear antes da eleição. Em áudio enviado ao ex-banqueiro, Flávio disse: “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim, é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso, e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme”. Em novembro, na véspera da prisão de Vorcaro, Flávio reforçou: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
Os valores e a investigação
Flávio teria negociado com Vorcaro o repasse de R$ 134 milhões para o filme, mas apenas R$ 61 milhões foram desembolsados, devido às dificuldades do banco. Vorcaro investiu pesado para criar uma rede de contatos com poderosos, bancando festas, viagens e consultorias milionárias. A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal sob supervisão do ministro do STF André Mendonça, investiga a legalidade dessas iniciativas. A ajuda ao filme de Bolsonaro passará pelo mesmo escrutínio.
Após a revelação, Flávio se reuniu com sua campanha e divulgou nota, apresentando-se como um filho que pediu patrocínio privado para um filme privado sobre o pai. “Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, disse. “Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula com Vorcaro.” O governo petista rebateu, afirmando que o Master foi liquidado pelo Banco Central e está sendo investigado pela PF.
No entanto, o aliado bolsonarista Mario Frias, deputado federal e produtor do longa, inicialmente negou o recebimento de dinheiro de Vorcaro, depois retificou, explicando que o repasse foi feito por meio de uma empresa. A PF vai apurar o caminho do dinheiro, que teria sido transferido para um fundo no Texas, pela Entre Investimentos e Participações, sediada no mesmo estado de Eduardo Bolsonaro. Flávio defendeu a instalação imediata da CPI do Master.
O constrangimento e as reações
Na saída do encontro com Fachin, Flávio foi questionado sobre o pedido de ajuda financeira a Vorcaro, mas como o áudio ainda não havia sido divulgado, disse que era mentira. Ele tentou esconder a transação. Na nota, afirmou: “Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado e não existiam acusações públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio do filme”.
As mensagens foram enviadas quando Vorcaro tentava salvar o Master com ajuda de políticos ligados à família Bolsonaro. O BRB, banco estatal de Brasília, fez proposta de compra do Master, vetada pelo BC. No Congresso, o senador Ciro Nogueira apresentou emenda para ampliar a cobertura do FGC, que, se aprovada, daria fôlego ao Master. A PF afirma que a emenda foi redigida pela equipe de Vorcaro. Ciro usufruía de um apartamento de luxo de Vorcaro e recebia mesada.
O racha na direita
O escândalo do Master é suprapartidário, envolvendo autoridades dos Três Poderes. Flávio foi tragado para o centro do furacão. O líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto (PL-PB), rebateu: “O PT tenta jogar todos no mesmo ambiente de suspeita”. Mas outros presidenciáveis da direita fizeram cobranças, provocando um racha. Romeu Zema (Novo) considerou “imperdoável” o pedido de Flávio a Vorcaro. Ronaldo Caiado (PSD) pediu clareza nas relações. Eduardo Bolsonaro contra-atacou Zema, lembrando que o Master doou R$ 1 milhão para a campanha do ex-governador.
Outros filmes e a delação
Além do filme de Bolsonaro, Vorcaro financiou o documentário de Oliver Stone sobre Lula e o filme sobre Michel Temer, “963 Dias”. O publicitário Elsinho Mouco confirmou que Vorcaro doou R$ 1 milhão para a produção de Temer, em 2023, com cláusula de confidencialidade. A assessoria da Presidência negou pedido de financiamento para o documentário de Lula. Vorcaro também injetou dinheiro em sites jornalísticos e patrocinou eventos.
Em nova fase da Operação Compliance Zero, a PF prendeu Henrique Vorcaro, pai de Daniel, apontado como beneficiário do esquema, e um grupo encarregado de espionagem e ameaças.
O filme sobre Jair Bolsonaro, intitulado “Dark Horse”, tem o ator Jim Caviezel como protagonista. A sinopse fala de um outsider que enfrenta um plano de assassinato. O enredo corre o risco de ser maculado pela aproximação do primogênito do herói com o establishment corrupto que o filme pretende denunciar.



