Corrupção sistêmica na Polícia Civil de SP: entenda o esquema revelado pelo Gaeco
Corrupção sistêmica na Polícia Civil de SP: entenda o esquema

Entenda o esquema de corrupção sistêmica na Polícia Civil de São Paulo

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) ofereceu denúncia contra uma organização criminosa que atuava há pelo menos quatro anos dentro da Polícia Civil. O grupo, composto por policiais civis, advogados e operadores financeiros, transformou delegacias em verdadeiros balcões de negócios, garantindo impunidade para esquemas bilionários de lavagem de dinheiro e fraude.

Como funcionava o esquema

De acordo com as investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a associação criminosa era liderada por notórios operadores financeiros, como Leonardo Meirelles. Eles contavam com o auxílio de advogados e intermediários para oferecer vantagens indevidas a agentes públicos, com o objetivo de retardar ou omitir atos de ofício.

Em um dos casos mais emblemáticos, policiais teriam solicitado R$ 5 milhões para paralisar investigações no 16º Distrito Policial, na Vila Clementino. As provas colhidas, que incluem mensagens de texto e áudios recuperados, revelam um controle meticuloso do fluxo de pagamentos de propinas, por vezes referidas como "despesas do Deic".

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Os diálogos mostram os denunciados planejando o rateio de valores e utilizando empresas de fachada para operacionalizar os repasses em espécie. Em uma das conversas, um operador chegou a comparar a delegacia a um banco onde "só se deposita, nunca saca".

Métodos de lavagem de dinheiro

Para ocultar a origem ilícita da propina, o grupo utilizava métodos sofisticados, como a conversão de dinheiro vivo em créditos de vale-refeição. O mecanismo operava por meio de estabelecimentos comerciais fictícios que registravam vendas inexistentes. Dessa forma, os valores ilegais eram inseridos no sistema como benefícios, dificultando o rastreamento pelas autoridades financeiras. Além disso, a rede usava empresas de fachada e simulava operações de importação para dar aparência legal aos recursos.

Valores milionários

As investigações do Gaeco revelaram cifras milionárias. Áudios e mensagens interceptados mencionam uma transferência de R$ 33 milhões referente a um acerto em uma delegacia. Em outro diálogo, um dos alvos afirma que um delegado já teria recebido mais de R$ 20 milhões em propina. Há também o relato de um episódio em que policiais exigiram R$ 5 milhões para não dar prosseguimento a um inquérito específico. Mensagens mostram ainda pagamentos fracionados de valores menores, como R$ 10 mil, R$ 100 mil e R$ 220 mil, destinados a departamentos como o Deic.

Principais alvos e presos

Entre os nove detidos estão quatro policiais civis:

  • O delegado João Eduardo da Silva (lotado na Delegacia do Jabaquara);
  • O escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz (também do Jabaquara);
  • Os investigadores Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção do DPPC) e Rogério Coichev Teixeira (do Serviço Aerotático).

Também foram presos os advogados Antônio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antônio Fontana, além da doleira Meire Poza. O doleiro Leonardo Meirelles teve a prisão decretada, mas permanece foragido.

Papel de doleiros da Lava Jato

Meire Poza e Leonardo Meirelles, figuras conhecidas por atuarem na estrutura financeira do doleiro Alberto Youssef durante a Operação Lava Jato, reapareceram como operadores financeiros deste esquema em São Paulo. Meire Poza é acusada de ser a responsável pela contabilidade do grupo criminoso e de pagar propina a policiais para evitar fiscalizações. Já Meirelles, que possui acordo de delação homologado pelo STF em casos anteriores, é apontado como o responsável por ajudar a mascarar a origem do dinheiro da corrupção policial e pagar agentes para se livrar de investigações no DPPC e no Deic.

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Locais das irregularidades

As negociações ilícitas e os atos de corrupção foram identificados em unidades de elite, como o Departamento de Investigações Criminais (Deic) e o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). Investigadores relatam que houve episódios de pagamento de propina realizados no hangar do Serviço Aerotático no Campo de Marte e extorsões conduzidas no âmbito do 16º Distrito Policial. Em um dos casos mais graves, criminosos teriam tido acesso ao DPPC para substituir um disco rígido (HD) apreendido por um dispositivo vazio, destruindo provas incriminatórias.

Como as autoridades chegaram ao grupo

A Operação Bazaar é um desdobramento da Operação Recidere, de 2023, que investigou um esquema bilionário (R$ 4 bilhões) de envio de dinheiro ilícito ao exterior. Após a análise de celulares apreendidos naquela ocasião, descobriu-se que os operadores financeiros mantinham uma relação de corrupção com delegados e investigadores da ativa. Outra investigação relacionada, a Operação Fractal, que apurava fraudes bancárias e lavagem com criptomoedas, também revelou tratativas ilícitas e fraude processual por parte de policiais civis que deveriam estar investigando esses crimes.

O que dizem as autoridades

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da ação e que a instituição "não compactua com desvios de conduta". A Polícia Civil determinou a realização de apurações administrativas rigorosas em todas as unidades onde houve buscas e informou que a Corregedoria fará verificações extraordinárias nos atos de polícia judiciária conduzidos pelos agentes presos. As verificações começaram pelo 35º Distrito Policial, no Jabaquara.

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) está em viagem à Alemanha. Em agenda em Bauru, no interior de São Paulo, o governador em exercício, Felicio Ramuth (PSD), classificou o esquema como "pontual". “É um caso pontual, ele não significa que a Polícia Civil esteja envolvida, mas envolve quatro policiais, e repito, foi uma investigação conjunta da Corregedoria da Polícia Civil e o Ministério Público, para que a gente pudesse atuar e tomar as devidas providências. Pode ter certeza que ao longo da apuração, as medidas que nós tomaremos como governo do Estado serão tão duras quanto os crimes que esses maus profissionais cometeram”, disse.

Pedidos do Ministério Público

O MPSP pede a condenação dos envolvidos por crimes como associação criminosa, corrupção ativa e passiva, e fraude processual. Além das penas de prisão, a promotoria solicita a perda do cargo público para os policiais envolvidos e o pagamento de indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 5 milhões. A denúncia também pede a manutenção das prisões preventivas e o bloqueio de bens dos acusados.