Câmara aprova urgência para projeto que altera fiscalização ambiental por satélite
Projeto que muda fiscalização ambiental por satélite tem urgência aprovada

Câmara aprova urgência para projeto que altera fiscalização ambiental por satélite

Os deputados federais aprovaram nesta quarta-feira o regime de urgência para um projeto de lei que modifica significativamente os procedimentos de fiscalização ambiental no Brasil, com foco especial no uso de imagens de satélite. A proposta, de autoria do deputado Lúcio Mosquini, do MDB de Rondônia, altera a Lei dos Crimes Ambientais e tem gerado intenso debate entre parlamentares, ambientalistas e representantes do agronegócio.

O que muda na fiscalização ambiental

Atualmente, órgãos de fiscalização como o Ibama utilizam imagens de satélite para identificar áreas desmatadas em todo o território nacional. A partir do cruzamento desses dados com outras informações, é possível embargar e paralisar atividades econômicas em propriedades com indícios de irregularidades ambientais. O projeto em questão proíbe expressamente o embargo baseado exclusivamente na detecção remota de supressão de vegetação.

O texto estabelece que a fiscalização ambiental precisa notificar previamente o autuado para que ele possa prestar esclarecimentos dentro de um prazo razoável antes da imposição de qualquer medida restritiva. Segundo o deputado autor da proposta, essa mudança visa garantir o direito de ampla defesa dos produtores rurais, que muitas vezes sofrem embargos sem ter a oportunidade de se defender adequadamente.

Argumentos a favor e contra

Lúcio Mosquini, deputado autor do projeto, defende que a medida não elimina a fiscalização por satélite, mas sim assegura direitos básicos: "É garantir o direito de ampla defesa de quem está sendo punido com esse embargo. Eu quero que ele seja notificado. Eu sou a favor do satélite, da máquina fotográfica, sou a favor de um carro ir lá, sou a favor de um fiscal ambiental. Eu só sou contra negar o direito de defesa para o produtor rural".

Por outro lado, parlamentares contrários à proposta argumentam que o projeto beneficia o desmatamento ilegal e que a legislação atual já garante amplamente o direito à defesa. O deputado Bohn Gass, do PT do Rio Grande do Sul, afirma: "É muito importante que se diga que somente o Ibama multa quem faz o desmatamento fora da lei. O Ibama vai identificar, vai checar. Se a pessoa tem autorização, ele não pode multar, e se houver um engano, tem recurso. Ninguém está tirando possibilidade de não poder recursar".

Impacto nas operações do Ibama

Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, alerta que o projeto ameaça seriamente as operações do instituto: "Não é apenas olhar imagens. Há um cruzamento com dados. A partir dessas evidências, o órgão embarga e consegue parar muitas vezes o desmatamento ou até outras infrações ambientais. Se ele tiver que notificar, terá que ir a campo. Os órgãos ambientais não têm recursos para isso".

Ela acrescenta: "Essa proposta traz uma tentativa de barrar essa efetividade do controle do desmatamento, é uma tentativa de implodir um instrumento importante usado pela fiscalização ambiental". Ambientalistas temem que a necessidade de notificação prévia e a proibição de embargos baseados apenas em imagens de satélite reduzam drasticamente a capacidade de ação rápida contra o desmatamento ilegal.

Próximos passos

Com a urgência aprovada, o projeto está agora pronto para ser votado diretamente no plenário da Câmara dos Deputados, sem necessidade de passar por nenhuma comissão temática. No entanto, o presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos, afirmou que o projeto só será colocado em votação após um amplo e detalhado debate entre todas as partes interessadas.

O tema promete continuar gerando controvérsias nos próximos dias, com entidades ambientalistas organizando campanhas contra a proposta e representantes do agronegócio defendendo a necessidade de maior segurança jurídica para os produtores rurais. A discussão ocorre em um momento crucial para as políticas ambientais brasileiras, com o país sob pressão internacional para conter o avanço do desmatamento na Amazônia e em outros biomas.