COP30: Embaixador alerta para ultrapassar 1,5°C nesta década e defende novo modelo climático
Na 12ª carta da Presidência da COP30, divulgada nesta terça-feira (27), o embaixador André Corrêa do Lago fez um alerta contundente sobre a urgência climática global. O documento defende a aceleração de decisões climáticas e a evolução do multilateralismo diante do avanço acelerado do aquecimento global, que ameaça ultrapassar limites críticos em poucos anos.
Limite de 1,5°C pode ser ultrapassado ainda nesta década
No texto, Lago mencionou que o mundo pode ultrapassar o limite de 1,5 ºC de aquecimento global — referência central do Acordo de Paris — ainda nesta década. Esta projeção alarmante reforça a necessidade de ações imediatas e eficazes para conter os impactos das mudanças climáticas.
Apesar dos avanços registrados, a Presidência da COP30 reconheceu que os resultados ficaram "aquém do esperado" por cientistas e por comunidades já afetadas pelos impactos da mudança do clima. Esta avaliação honesta destaca o fosso entre as promessas internacionais e a realidade enfrentada por populações vulneráveis.
Determinação de Lula para transição energética justa
O presidente da COP30 citou também a determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que o governo brasileiro elabore até fevereiro diretrizes para uma transição energética justa e planejada. Esta determinação estabelecida no fim do ano passado, após a realização da COP30, envolve os ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima e de Minas e Energia.
Belém, sede da conferência, revelou ao mundo sua história, cultura e os desafios do clima durante a COP30, consolidando-se como palco central das discussões climáticas globais.
O significado do "mapa do caminho" climático
Em conversa com jornalistas nesta terça, Corrêa do Lago afirmou estar consciente que muitos vão julgar o resultado da COP30 com base no mapa do caminho. "Estamos conscientes do mapa do caminho, muitos vão julgar a COP30 com o mapa do caminho, apesar de ser uma proposta da Presidência, estamos trabalhando, falando com interlocutores que queremos os envolver", pontuou o embaixador.
Alguns países já ofereceram apoio e a Presidência quer que o roadmap seja também um documento que reúna a maior inteligência sobre o tema. O termo "mapa do caminho" ou roadmap é usado em negociações internacionais para designar planos de ação que estabelecem etapas, prazos e metas concretas rumo a um objetivo comum.
Na prática, trata-se de um roteiro político e técnico que define "quem faz o quê, até quando e com quais recursos". Atualmente, há duas frentes distintas de planejamento:
- A diretriz nacional determinada pelo presidente Lula, voltada à elaboração de orientações para uma transição energética justa no Brasil
- O conjunto de roadmaps que o presidente da COP30 deve desenvolver e apresentar à comunidade internacional, com foco na implementação das decisões globais sobre clima
Novo modelo de dois níveis para ação climática
Na carta, Corrêa do Lago avalia que a conferência realizada em Belém, em novembro de 2025, marcou a transição do regime climático internacional para uma nova fase centrada na implementação, após três décadas de negociações. Segundo o balanço feito pelo embaixador, a urgência climática supera o ritmo das decisões diplomáticas tradicionais e exige mecanismos capazes de acelerar a entrega de resultados.
O documento reconhece limitações do atual sistema multilateral e propõe um modelo de dois níveis:
- Um nível baseado no consenso, responsável por garantir legitimidade e segurança jurídica
- Outro nível voltado à implementação, que permita a atuação de coalizões de países e de atores não estatais sem reabrir decisões já pactuadas
O texto destaca ainda que a COP30 se consolidou como a "COP da Implementação", ao mobilizar mais de 480 iniciativas em 190 países por meio da Agenda de Ação Climática e ao registrar a apresentação de mais de 120 novas Contribuições Nacionalmente Determinadas.
Resultados concretos e participação ampliada
Entre os resultados citados na carta estão:
- Capitalização inicial superior a US$ 6,6 bilhões do Fundo Florestas Tropicais para Sempre
- Adoção de 56 decisões por consenso
- Realização de mutirões temáticos em todos os continentes
- Eventos preparatórios no Brasil e ampla programação em Belém
A carta também enfatiza o caráter participativo da conferência, incluindo a Zona Verde, a Cúpula dos Povos, a Aldeia Indígena da COP30 e a Marcha Global pelo Clima, que reuniu cerca de 70 mil pessoas em manifestação histórica.
Corrêa do Lago mencionou também que o regime climático internacional entrou em uma fase de transformação e defende que a resposta à crise climática deixe de depender exclusivamente de negociações formais, passando a se apoiar em um movimento global irreversível voltado à implementação concreta das soluções acordadas.
"Sob minha responsabilidade, esses roadmaps são concebidos como plataformas políticas e técnicas para mobilizar países e atores não estatais no avanço do planejamento nacional e internacional para implementar os parágrafos 28, 33 e 34 do Balanço Global. Convido todas as partes interessadas, especialistas, produtores, empresas estatais e privadas, consumidores, seguradoras, instituições financeiras e governos a contribuir para esse esforço a partir de suas respectivas perspectivas", conclui o embaixador na carta.