Em um cenário global onde o discurso anti-imigração ganha força, impulsionado por líderes de extrema direita, a Espanha segue um caminho oposto sob o comando do primeiro-ministro Pedro Sánchez. Ele acaba de assinar um decreto que regulariza a situação de meio milhão de imigrantes, medida já em vigor. A ação abrange estrangeiros que entraram no país até 1º de janeiro, desde que não tenham antecedentes criminais e comprovem vínculo familiar ou de trabalho.
Motivações econômicas e políticas
A iniciativa, embora pareça ideológica por vir de um governo socialista, tem forte viés econômico. A formalização desses imigrantes deve aumentar a arrecadação de impostos, impulsionando a economia espanhola. Com taxa de desemprego de 10%, bem acima da média da União Europeia (6%), o país busca na mão de obra imigrante, majoritariamente latino-americana, um impulso à produtividade. “Alguns líderes optaram por caçá-los, mas a Espanha quer defendê-los”, declarou Sánchez.
Posicionamento geopolítico
Sánchez também se destaca na geopolítica, tornando-se uma voz crítica contra a guerra no Irã e o presidente dos EUA, Donald Trump. Ele acusou Trump de promover um conflito “absolutamente ilegal” e recusou aumentar os gastos com defesa para 5% do PIB, como exigido pelo americano. Além disso, proibiu caças dos EUA de sobrevoar o espaço aéreo espanhol e usar bases militares no país. Também removeu o embaixador espanhol em Israel e liderou um grupo na UE favorável à suspensão de acordos com Israel, ainda sem sucesso.
Desafios internos
Apesar da popularidade em política externa, Sánchez enfrenta desgaste interno após quase uma década no poder. Escândalos de corrupção envolvendo seu círculo próximo, incluindo sua esposa Begoña Gómez, que será julgada por supostos desvios de verbas públicas, afetam sua imagem. A economia espanhola cresceu 2,8% em 2025, superando a média europeia de 1,5%, mas o tempo no cargo e as controvérsias pesam.
Estratégia de alianças
Sánchez busca se firmar como defensor do multilateralismo, aproximando-se de líderes como Gustavo Petro (Colômbia), Claudia Sheinbaum (México) e Lula (Brasil). Em reunião em Barcelona, criticaram Trump. Também se encontrou com o presidente chinês Xi Jinping, defendendo maior cooperação entre Europa e China. Com eleições nacionais previstas para 2027, sua aposta em políticas contrárias às tendências globais deve se intensificar.
A política de imigração, embora apoiada por associações comerciais e sindicatos, enfrenta resistência da direita radical, como o partido VOX, que obteve bons resultados em eleições regionais. O cientista político Joan Botella, da Universidade Autônoma de Barcelona, avalia que Sánchez usa a política externa por ser uma área onde a opinião pública lhe é favorável. Já William Chislett, do Real Instituto Elcano, pondera que medidas pró-imigração esbarram na resistência da direita.



