Menino libanês morto em bombardeio sonhava em conhecer o Brasil
Menino libanês morto sonhava conhecer Brasil

O menino Ali Ghassan Nader, de apenas 11 anos, perdeu a vida em um bombardeio israelense no sul do Líbano neste domingo (26). Ele alimentava o sonho de conhecer o Brasil, país onde seus pais residiram por aproximadamente duas décadas. A informação foi divulgada pelo tio da criança, Mohamad Ali Kassem Jaafar.

Ali faleceu no mesmo ataque que vitimou seus pais, Ghassan Nader e Manal Jaafar. A família possuía naturalização brasileira, conforme confirmou o Ministério das Relações Exteriores.

O sonho interrompido

“O que significa perder um menino de 11 anos? Ele tinha o sonho de conhecer o Brasil, onde os pais dele viveram, trabalharam, onde os irmãos estudaram. Por que matar esse sonho? O que essa criança fez? Não dá para entender”, desabafou o tio.

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Segundo familiares, Ali nasceu no Líbano e era um grande fã da Seleção Brasileira de Futebol. Seus pais viveram em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná, onde tiveram três filhos antes do nascimento de Ali. Parte da família ainda mantém vínculos com o Brasil.

O corpo do menino foi sepultado na segunda-feira (27). Até a última atualização desta reportagem, os corpos dos pais ainda não haviam sido localizados. Um dos irmãos, que estava na residência no momento do ataque, sobreviveu. Outros dois filhos do casal não estavam no local.

Impacto na família

De acordo com o tio, a morte de Ali também afetou profundamente outras crianças da família. Ele relatou que seu próprio filho, da mesma idade do primo, sente intensamente a perda.

“Meu filho disse: ‘pai, eu perdi meu melhor amigo’. Eles tinham a mesma idade, estavam sempre juntos. Ele falou que, quando vai dormir, começa a pensar com quem vai brincar, com quem vai conversar. É muito difícil”, contou.

A trajetória da família no Brasil

Segundo Mohamad Ali Kassem Jaafar, irmão de Manal, a família mudou-se para o Brasil na década de 1990 e construiu sua vida em Foz do Iguaçu, onde realizou o processo de naturalização e permaneceu até 2010.

“Meu cunhado foi para o Brasil por volta de 1990, e minha irmã em 1996. Eles ficaram em Foz do Iguaçu até 2010. Trabalharam no Brasil e no Paraguai, abriram negócios e regularizaram tudo”, explicou.

Ele contou que a decisão de retornar ao Líbano ocorreu após uma visita ao país. “Eles decidiram voltar em 2010. Era para ser uma visita, mas o irmão dele faleceu e eles optaram por ficar. Mesmo assim, sempre mantiveram o amor pelo Brasil e ensinaram isso aos filhos”, disse.

O ataque

Conforme o relato do irmão de Manal, a família havia deixado o sul do Líbano no início da guerra e se mudado temporariamente para Beirute, a capital. Após o anúncio de um acordo de cessar-fogo, eles decidiram retornar à sua casa.

“Disseram que tinha cessar-fogo e as pessoas começaram a voltar. Na primeira semana, eles iam e voltavam. Na segunda semana, estavam em casa, como uma família, preparando um almoço, quando aconteceu o bombardeio”, relatou.

Ele ainda mencionou que esteve com os parentes pouco antes do ataque. “Um dia antes, eu fui à casa deles. A gente chegou a passar a noite lá.”

Ao saber do bombardeio, Mohamad foi até o local e encontrou a residência destruída. “No dia, eu estava em Beirute. Fiquei sabendo do ataque e fui direto para o sul. A casa, de três andares, estava toda no chão. É um terror. A gente não conseguiu encontrar os corpos. Eu mesmo procurei com as minhas mãos”, disse, emocionado.

Contexto dos ataques

No domingo (26), o Exército israelense iniciou novos ataques no sul do Líbano, apesar do cessar-fogo em vigor com o Hezbollah, grupo extremista libanês apoiado pelo Irã, que foi prorrogado até a segunda quinzena de maio. A informação foi divulgada pela agência de notícias francesa RFI.

Pelo menos 14 pessoas morreram e 37 ficaram feridas nos ataques israelenses no sul do Líbano no último domingo. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que o ataque constitui mais um exemplo das “reiteradas e inaceitáveis violações ao cessar-fogo” anunciado em 16 de abril.

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Conforme o governo brasileiro, dezenas de civis libaneses, incluindo mulheres e crianças, morreram nesses ataques. “Ao expressar sinceras condolências aos familiares das vítimas, o Brasil reitera sua mais veemente condenação a todos os ataques perpetrados durante a vigência do cessar-fogo, tanto por parte das forças israelenses quanto do Hezbollah”, afirmou o Itamaraty.

O Brasil vem defendendo que as tropas israelenses devem deixar imediatamente o Líbano e que o cessar-fogo entre Israel e Irã seja estendido ao Líbano, garantindo a soberania do país. A embaixada brasileira em Beirute está em contato com a família dos brasileiros mortos para prestar assistência.

Prorrogação do cessar-fogo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quinta-feira (23) a prorrogação do cessar-fogo entre Israel e Líbano por mais três semanas. A decisão foi tomada após uma nova reunião entre autoridades dos dois países em Washington.

A trégua entrou em vigor em 16 de abril e previa duração inicial de 10 dias. Com a renovação, o cessar-fogo deve durar pelo menos até o início da segunda quinzena de maio. Apesar disso, há dúvidas sobre a efetividade do acordo, já que Israel e o Hezbollah trocaram ataques nos últimos dias. No mesmo dia do anúncio de Trump, o grupo extremista libanês lançou foguetes contra o norte de Israel, que foram interceptados. Um dia antes, em 22 de abril, pelo menos cinco pessoas morreram em um bombardeio israelense no sul do Líbano, incluindo uma jornalista libanesa de 43 anos.