Mateus e Camila Shida, gêmeos de 18 anos que cresceram em Bastos, cidade de 20 mil habitantes no interior de São Paulo, foram aprovados em duas das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos: o MIT (Massachusetts Institute of Technology) e a Universidade Cornell. A conquista, no entanto, não é fruto de genialidade, como eles mesmos fazem questão de esclarecer. “Já estudei com gente que era gênio de verdade. A gente sabe que não é nosso caso. O negócio foi sentar na cadeira e estudar, não teve jeito”, brinca Mateus.
O g1 conversou com os irmãos e com a mãe, Lucila, para entender quais foram os diferenciais que os levaram ao seleto grupo da Ivy League. Confira a seguir.
Um livro por dia, desde o berço
A mãe, dentista, e o pai, agrônomo, transformaram a casa em um ambiente estimulante para o desenvolvimento cognitivo dos filhos. Ao redor dos berços, deixavam livros infantis espalhados. Os bebês engatinhavam até as obras e escutavam histórias todos os dias. “Acho que nossos pais sempre foram visionários. Não entendíamos no começo, mas hoje sou apaixonada por ler”, conta Camila. “Na pandemia, li mais de 50 livros em um ano. Gosto de fantasia, ficção científica, romance…”, completa Mateus.
Celular? Só depois dos 15 anos
Para os jovens, a falta de contato com telas foi decisiva para o interesse pela literatura. “Ganhei celular aos 15 anos. Minha mãe sempre oferecia um livro em vez de um tablet”, diz Mateus. Jogos de tabuleiro e cartas também foram importantes, segundo Lucila: “Eles exigem controle, estratégia e persistência”.
Alfabetização em português e inglês aos 2-3 anos
Aos 2 anos, Camila foi diagnosticada com leucemia e passou oito meses internada. Enquanto outros pacientes se distraíam com telas, a mãe propôs: “Vamos evoluir nesse tempo: desenhar, fazer origami, pintar as unhas e aprender a ler”. A alfabetização começou ali. Aos 2 anos, os irmãos já liam em português; aos 3, em inglês. “Nunca fizeram inglês em escola. Preferi três professores particulares diferentes, de cidades distintas, para ter pronúncias e metodologias variadas”, explica Lucila.
Soroban e olimpíadas (com rivalidade saudável)
Desde cedo, os dois mergulharam no Soroban, o ábaco japonês, que exige concentração e agilidade mental. Treinavam tanto que chegaram a competir em Taiwan e no Japão. Mateus, o mais entusiasta, treinava cinco horas por dia após as aulas. “Aproveitamos a cultura japonesa de Bastos. A dedicação total nos levou a competições internacionais”, diz ele. As olimpíadas científicas marcaram a adolescência: “De tudo que começava com ‘O’ (OBA, OBR), a gente participava”, brinca Camila. Como a escola local tinha limitações, a mãe estudava os conteúdos para ensinar os filhos em casa.
Rivalidade saudável entre gêmeos
“Não quero ser melhor que ela, mas se Camila resolve fazer algo, aquilo se torna o novo padrão. Eu rendo mais quando ela está no mesmo projeto”, explica Mateus. Nos anos finais do ensino fundamental, tiveram tutoria à distância do Curso Etapa. No ensino médio, mudaram-se para São Paulo e estudaram presencialmente na instituição, com bolsas de 75% e 100%, respectivamente. “Queríamos estar perto de pessoas que sonhavam alto”, conta Camila.
Cultura japonesa e o dever de retribuir
Bastos, conhecida como “Capital do Ovo”, tem forte influência da imigração japonesa. Essa herança moldou a visão de mundo dos jovens, que cresceram com o princípio de gratidão e serviço à comunidade. “Queremos aplicar o que aprendermos fora para resolver problemas no Brasil”, afirma Camila. Na adolescência, criaram um projeto voluntário de aulas de matemática em escolas públicas da cidade.
Esportes e mais esportes
Apesar da rotina intensa de estudos, o esporte sempre foi obrigatório: dança, baseball, beach tennis. No dia em que a resposta de Cornell saiu, Mateus estava jogando no clube. “A internet estava ruim, errei a senha, o site travou… Foi um caos”, lembra. O alívio veio em casa, com confetes digitais na tela. Camila recebeu a notícia do MIT no “Pi Day” (14/03). “Estava sozinha em São Paulo. Quando vi os castorezinhos caindo na tela, entrei em choque. Minha mãe gritava ao telefone e eu não conseguia responder”, diz.
Estudar em universidades como Cornell ou MIT pode custar entre US$ 90 mil e US$ 100 mil por ano, mas as instituições oferecem auxílio financeiro conforme a necessidade. No MIT, o aluno é admitido primeiro e depois a universidade avalia a condição econômica. Em Cornell, o processo também considera o perfil acadêmico e a realidade do candidato.
E os primos?
Duas primas de Camila e Mateus estudam em Michigan e Notre Dame; a irmã mais velha faz medicina na Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein. “Nossa família sempre acreditou nisso. Nossas mães se apoiavam e colocavam todo mundo nos mesmos incentivos”, explica Camila. O primo mais novo, de 17 anos, está no terceiro ano do ensino médio e quer medicina na USP ou Unicamp. “A gente fica zoando, coitado”, diz Mateus. “Mas estar em um ambiente onde todo mundo quer algo a mais faz com que o sonho de estudar fora se torne uma possibilidade real.”



