61ª Bienal de Veneza abre sob tensão geopolítica e protestos
Bienal de Veneza 61 abre com protestos e arte de resistência

A 61ª edição da Bienal de Veneza, a maior exposição de arte contemporânea do mundo, foi aberta ao público neste sábado (9) na Itália. O evento, que se estende até novembro, apresenta obras de 110 artistas que exploram temas como memória, sobrevivência e reconstrução. A correspondente Ilze Scamparini acompanhou a pré-estreia, marcada por protestos.

Protestos e tensão geopolítica

Em Veneza, algo no ar chamava a atenção além das gôndolas nos canais: jatos de pó rosa-choque anunciavam que algo diferente estava acontecendo. Rostos cobertos e seios à mostra ocuparam o pavilhão da Rússia durante os quatro dias de pré-estreia, com palavras de ordem contra Vladimir Putin. Inicialmente, a geopolítica atraiu mais atenção do que as instalações artísticas. Excluída da Bienal desde a invasão da Ucrânia, a Rússia retornou, provocando grande descontentamento. Todos os jurados pediram demissão, inconformados com a participação russa e também de Israel.

Cada país é responsável por seu próprio pavilhão, e as escolhas passam pela aprovação dos governos. No pavilhão israelense, havia policiamento constante e uma obra composta por tubos que gotejam em um tanque de águas escuras. A Rússia apresentou o que chamou de "árvore radicada no céu", resultado de um trabalho coletivo.

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Arte como resistência e cura

Esta Bienal é, acima de tudo, uma resposta às guerras. Mais do que isso, propõe cura e resistência, defendendo que, em um mundo em conflito, o papel da arte é tornar-se um refúgio que protege a imaginação e reconstrói a memória. Nesse sentido, o pavilhão brasileiro é um dos mais aguardados.

Pavilhão brasileiro

Na arquitetura modernista brasileira do final dos anos 1950, dois grandes nomes se destacam: Adriana Varejão e Rosana Paulino. A curadora Diane Lima pensou em temas que vão do colonialismo ao sofrimento das mulheres negras. "Eu acho que esse pavilhão só é possível porque a gente vive num país democrático", afirmou.

Rosana e Adriana optaram por um trabalho que parecesse único. "Então, geralmente, essa viga central que corta o pavilhão servia como espaço de separação. Primeira coisa que me veio à cabeça no projeto foi tomar partido dessa viga como um elemento, quase como uma coluna dorsal, um elemento de união", explicou Adriana. No alto, ela expõe pinturas inspiradas nos azulejos portugueses, dentro de uma perspectiva de revisão histórica. Rosana Paulino mostra um trabalho político que questiona presente e passado. "Para a gente entender o que acontece hoje, nós temos que voltar lá atrás, no período da escravidão. Isso é uma questão política, é uma questão de olhar hoje e entender quais são essas marcas que a escravidão deixou no Brasil e quais são as políticas, quais são as ações necessárias para que a população negra avance", disse.

Outros brasileiros expõem nas escuderias do Arsenal: Ayrson Heráclito, Dan Lie e Eustáquio Neves.

Outros pavilhões de destaque

Entre os pavilhões mais visitados, destaca-se o do Líbano, que mostra uma trajetória quase filosófica de um fugitivo da guerra nos anos 1970. O da França apresenta uma saudação a planetas como Saturno, enquanto o do Japão propõe a arte do cuidado com o outro. Música, poesia e cinema estão na obra da americana Cauleen Smith, em uma instalação que mistura vídeo, som e aromas. Beleza e dor nas esculturas do americano Nick Cave unem objetos domésticos, bordados e grandes bronzes; na peça central, o luto se transforma em arte. O queniano Kaloki Nyamai constrói suas telas como memórias costuradas, inspirado pelas histórias da avó e pelo ofício da mãe, costureira.

Tema central: experiência humana

Em tons menores — o tema desta Bienal —, defende-se uma mostra mais voltada à experiência humana. É um convite ao encantamento em meio ao clima de confronto, um acúmulo de sensações que tentam criar pausas em um mundo dominado pela violência.

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