Lápide com símbolo nazista em cemitério histórico de Goiás intriga pesquisadores
Entre os túmulos do cemitério São Miguel, na Cidade de Goiás, no noroeste do estado, uma lápide chama atenção por exibir uma suástica, símbolo do nazismo. O túmulo pertence a João Jessl, nome brasileiro do austríaco Johann Jessl, que morreu em 1936, durante o governo de Adolf Hitler na Alemanha. A presença deste símbolo associado ao genocídio de milhões de pessoas, principalmente judeus, no interior goiano, motivou uma pesquisa histórica detalhada.
A pesquisa acadêmica que desvendou a história
A história do imigrante austríaco é contada na dissertação de mestrado do pesquisador Frederico Tadeu Gondim, apresentada em 2021 na Universidade Federal de Goiás (UFG). Intitulada "A suástica de João Jessl: Memória e imaginário no cemitério São Miguel da Cidade de Goiás", o trabalho buscou situar historicamente tanto o símbolo quanto o estrangeiro que escolheu o Brasil como novo lar.
Segundo a pesquisa, Jessl chegou ao Brasil em dezembro de 1925, aos 22 anos, desembarcando de navio em Santos, São Paulo. Sua vinda foi motivada pela busca de melhores condições de vida, em meio à recessão econômica que atingia a Áustria e a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Pelos registros históricos, ele chegou sozinho e morou isolado na Cidade de Goiás pelo menos a partir de 1928.
Tragédia familiar e vida solitária no Brasil
A maior parte da família de Jessl havia morrido na Europa antes de sua partida. Seu pai faleceu em 1917 de miocardite, o irmão Anton em 1923 de tuberculose, e a irmã caçula Anna em 1926, cerca de dois meses após Jessl deixar o continente europeu, também vítima de tuberculose. A mãe, Anna Blumauer Jessl, morreu em 1929 após um coma diabético.
O estado civil de Jessl permanece um mistério. Quando morreu, foi classificado como "viúvo", mas não há registros de que tenha se casado nem no Brasil nem na Áustria. "A lista de passageiros do navio que o trouxe ao Brasil, mesmo sujeita a erros, descreve-o como 'solteiro'", destacou o pesquisador Frederico Gondim.
Profissão e papel estratégico na comunidade
Jessl trabalhou como eletricista na primeira concessionária de energia elétrica da antiga capital goiana. Em 1928, já estava empregado na Empresa de Força e Luz de Goiás, onde permaneceu até sua morte em 1936, aos 33 anos. Sua habilidade com o idioma alemão era valiosa, pois muitos materiais da empresa vinham da Alemanha.
"Mesmo que ele não fosse o único eletricista na equipe, vários dos materiais de interesse da empresa vinham da Alemanha, portanto o domínio do idioma era de grande valia. Ali, Jessl era o eletricista que falava alemão melhor do que qualquer outro", explicou Gondim. O pesquisador sugere que Jessl pode ter chegado à Cidade de Goiás recomendado por alguma empresa em que trabalhou em São Paulo.
O significado da suástica no contexto histórico
De acordo com a pesquisa, identificar-se como nazista não era motivo de repreensão na sociedade local da época, ao contrário do que provavelmente ocorreria hoje. Gondim ressalta que, naqueles anos, a suástica ainda não tinha a forte vinculação com a política de extermínio dos judeus, que se concretizou nos anos seguintes.
Adotado em 1920 pelo Partido Nazista, o símbolo buscava unir o "povo alemão" em torno de um sentimento de superioridade racial e propunha uma solução para a crise da época. "Redimensionada no imaginário dessas pessoas como a marca deixada por seus grandiosos ancestrais, a suástica se imbuía de um passado forjado", afirmou o historiador.
Morte e registro como alemão
Jessl morreu em 28 de dezembro de 1936, exatamente 11 anos após desembarcar em Santos. A causa foi um ataque cardíaco, semelhante ao que vitimou seu pai. A morte foi comunicada por um colega de trabalho, o eletricista Oswaldo Duarte, sugerindo que Jessl era querido pelos amigos, mas não constituíra nova família no Brasil.
Curiosamente, no registro de óbito, Jessl foi anotado como alemão, embora tenha nascido na Áustria. Gondim pondera que pode ter sido um equívoco de quem emitiu o atestado, "seguindo um raciocínio de que, se ele falava alemão, logo era da Alemanha", ou mesmo por confundi-lo com colonos alemães que viviam nas proximidades.
Acolhimento e tensão na memória histórica
Apesar de viver sozinho em território estrangeiro, a lápide de Jessl traz as afetuosas palavras "Aqui descansa nosso João Jessl". Para o historiador, o jovem foi acolhido pelos moradores, "sobretudo pelo papel chave que desempenhou na empresa onde trabalhou".
Gondim destaca que a presença da cruz suástica junto com o dizer afetuoso "estabelece uma encantadora tensão entre o carinho dos amigos da Cidade de Goiás e o símbolo que distingue Jessl em definitivo de seus contemporâneos vilaboenses". O pesquisador conclui que, embora Jessl pudesse se orgulhar da ascensão do partido nazista na Alemanha, "seu posicionamento político não teve importância ao contexto geral da Cidade de Goiás daqueles anos".



