Houthis reivindicam primeiro ataque direto contra Israel e ampliam ameaças a rota petrolífera global
Os houthis do Iêmen, grupo armado aliado do Irã, afirmaram neste sábado (28/03) ter realizado seu primeiro ataque direto contra Israel desde o início do atual conflito no Oriente Médio. O grupo declarou ter disparado uma série de mísseis balísticos "almejando alvos militares israelenses sensíveis" em resposta aos ataques contra o Irã, o Líbano, o Iraque e os territórios palestinos.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram mais cedo no mesmo dia ter interceptado um míssil lançado do Iêmen. Os houthis, que começaram a atacar navios no Mar Vermelho em novembro de 2023 e lançaram mísseis regularmente contra Israel após o início da guerra em Gaza, afirmaram que suas operações continuarão até o fim da "agressão" em todas as frentes.
Expansão do conflito e ameaça a estreito crucial
O envolvimento direto dos houthis no conflito amplia significativamente os temores de uma expansão da guerra, segundo análise de especialistas. Para Jo Floto, chefe do escritório da BBC News no Oriente Médio em Jerusalém, a intervenção abre uma nova frente do conflito na península Arábica.
O pesquisador Farea Al-Muslimi, do centro de estudos britânico Chatham House, destacou que o novo desdobramento é de "enorme importância" diante da influência que os houthis mantêm no Mar Vermelho. O grupo já ameaçou bloquear e atacar o Estreito de Bab el-Mandeb, situado entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia.
Este estreito controla o tráfego marítimo em direção ao Canal de Suez e transporta aproximadamente 12% do petróleo comercializado por via marítima no mundo. No último mês, a rota ganhou ainda mais importância ao se tornar uma alternativa para o escoamento de petróleo do Oriente Médio, diante do fechamento do Estreito de Ormuz.
Preparação militar e alertas internacionais
Na quinta-feira (26/3), a agência semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, informou que os houthis estariam prontos para assumir o controle do estreito como parte do que chamam de "forças de resistência". Uma fonte militar iraniana afirmou à agência que "se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental".
Antes mesmo do ataque deste sábado, o líder houthi Abdul Malik Al-Houthi já havia reforçado as ameaças sobre uma escalada, dizendo que o grupo responderia militarmente a ataques dos EUA e de Israel caso os desdobramentos da guerra exigissem. À Reuters, um dirigente houthi em anonimato afirmou que estão "militarmente prontos" para atacar o Estreito de Bab el-Mandab em apoio a Teerã.
Após as ameaças, os Estados Unidos emitiram um alerta sobre a possibilidade de ataques de houthis no Estreito de Bab el-Mandab. Um aviso publicado pela Administração Marítima do Departamento de Transportes dos EUA na quinta-feira afirmou que "embora o grupo terrorista houthi não tenha atacado navios comerciais desde o acordo de cessar-fogo entre Israel e Gaza em outubro de 2025, os houthis continuam a representar uma ameaça aos ativos dos EUA, incluindo embarcações comerciais, nesta região".
Quem são os houthis e sua trajetória no Iêmen
Os houthis são um grupo armado político e religioso que defende a minoria muçulmana xiita do Iêmen, os zaiditas. Eles se declaram parte do "Eixo da Resistência" liderado pelo Irã contra Israel, os EUA e o Ocidente em geral, juntamente com grupos armados como o Hamas e o Hezbollah, do Líbano.
Formalmente conhecido como Ansar Allah (Partidários de Deus), o grupo surgiu na década de 1990 e leva o nome de seu fundador, Hussein al-Houthi. O líder atual é seu irmão, Abdul Malik al-Houthi.
Os houthis ganharam grande força política no Iêmen no início de 2014, quando se levantaram contra o presidente iemenita Abdrabbuh Mansour Hadi. Eles tomaram o controle da província de Saada, no norte do Iêmen, e no início de 2015 capturaram a capital do país, Sanaa, forçando o presidente Hadi a fugir para o exterior.
A Arábia Saudita interveio militarmente para tentar derrubar os houthis e reempossar Hadi na presidência, com apoio do Bahrein e dos Emirados Árabes Unidos. Os houthis repeliram os ataques e continuaram a controlar grandes partes do Iêmen, onde a maioria da população vive em áreas sob seu controle.



