O funcionamento da bomba atômica e a crise nuclear iraniana
O programa nuclear do Irã está no epicentro do conflito que eclodiu no último sábado (28), envolvendo Teerã, Estados Unidos e Israel. Por meio de ataques estratégicos, o governo americano, sob Donald Trump, e o israelense, liderado por Benjamin Netanyahu, buscam neutralizar as instalações nucleares iranianas, alegando que o regime já possui matéria-prima e tecnologia de mísseis suficientes para produzir e lançar uma arma atômica.
A defesa do Irã é firme: o governo nega qualquer intenção militar, sustentando que suas pesquisas e instalações servem apenas para fins pacíficos, como produção de energia e avanços na medicina. Analistas internacionais alertam que essa tensão pode desencadear uma "corrida por armas" na região, embora até agora nenhum artefato nuclear tenha sido utilizado nos combates.
O que é uma bomba atômica e como funciona?
A bomba atômica "convencional", como as lançadas em Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial, opera através de um processo chamado fissão nuclear. Toda matéria é composta por átomos, que possuem núcleos formados por prótons e nêutrons. Normalmente estáveis, alguns elementos pesados como o urânio apresentam equilíbrio mais frágil.
Quando o núcleo do urânio-235 recebe um nêutron adicional, torna-se instável e quebra repentinamente em partes menores. "O princípio é quebrar núcleos atômicos e utilizar a energia resultante para a explosão", explica Leandro Tessler, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp.
Esse processo desencadeia uma reação em cadeia descontrolada: cada nêutron liberado atinge outros núcleos de urânio, gerando mais fissões e liberando energia colossal. "A bomba atômica baseia-se em reunir tanto urânio-235 que essas reações ficam incontroláveis", completa Tessler.
O significado do "235" e o enriquecimento de urânio
O número 235 refere-se à massa atômica do urânio, calculada pela soma de prótons e nêutrons. Todo átomo de urânio possui 92 prótons, mas varia no número de nêutrons. O urânio-235, utilizado em bombas, tem 143 nêutrons, enquanto o urânio-238, mais comum na natureza, possui 146.
O enriquecimento de urânio é o processo de aumentar a proporção de urânio-235 em relação ao urânio-238, geralmente realizado em ultracentrífugas que giram a altíssima velocidade. André Scarpinati Luchetti, do Instituto de Química da Unesp Araraquara, compara: "Seguem o mesmo princípio das centrífugas médicas que separam componentes do sangue, porém em versão muito mais potente."
Para fabricar armas nucleares, é necessário elevar a concentração de urânio-235 para acima de 85-90%, partindo dos 0,72% encontrados naturalmente. O esforço para atingir 20% é maior do que para alcançar 90%, gerando preocupação sobre países com estoques próximos desse limiar.
Por que urânio e plutônio são utilizados?
Ambos são materiais físseis, capazes de sustentar reação em cadeia ao serem "quebrados" por nêutrons, liberando energia e mais nêutrons. O urânio-235 existe na natureza, mas requer enriquecimento, enquanto o plutônio-239 é produzido artificialmente em reatores nucleares.
Embora o plutônio seja mais eficiente e exija menos material, apresenta maior risco de acidentes devido à taxa elevada de fissão espontânea, demandando sistemas de implosão extremamente precisos. Historicamente, a bomba de Hiroshima utilizou urânio-235, e a de Nagasaki, plutônio-239.
O poder devastador e os efeitos da bomba atômica
A energia liberada por uma bomba atômica é astronômica: um quilograma de urânio totalmente convertido gera aproximadamente 20 bilhões de vezes mais energia que a mesma quantidade de TNT. A bomba de Hiroshima, por exemplo, equivalia a 15 mil toneladas de TNT.
Os efeitos catastróficos incluem:
- Onda de choque devastadora que destrói estruturas e empurra tudo à frente
- Radiação térmica que causa queimaduras internas e externas, muitas vezes fatais
- Radiação ionizante que altera o DNA, gerando câncer e efeitos de longo prazo
"O que acontece é uma grande onda de choque quente que incendeia e esparrama tudo", descreve Luchetti, lembrando que tecidos biológicos carbonizados foram encontrados próximos aos epicentros de Hiroshima e Nagasaki.
A bomba termonuclear e os requisitos para fabricação
A bomba de hidrogênio, ou termonuclear, é ainda mais poderosa, combinando fissão e fusão nuclear - esta última unindo núcleos leves como ocorre no Sol. "A fusão libera ainda mais energia que a fissão, tornando essas armas significativamente mais destrutivas", explica Luchetti.
Para fabricar uma bomba atômica, um país precisa de:
- Instalações de enriquecimento de urânio ou reatores para produção de plutônio
- Sistemas de blindagem e manipulação de material radioativo
- Especialistas em física nuclear, modelagem computacional e engenharia de materiais
- Armas nucleares com sistemas precisos de sincronização e detonação
- Sistema de entrega via mísseis balísticos, aviões ou submarinos nucleares
Além dos desafios técnicos, trata-se de decisão política de alto risco que rompe tratados internacionais, podendo levar a sanções econômicas e isolamento diplomático, além da evidente tragédia humanitária.
