Ex-refém israelense revela horros de 505 dias em cativeiro do Hamas em livro autobiográfico
Eliya Cohen, um israelense de 28 anos, passou 505 dias em um cativeiro brutal nas profundezas da Faixa de Gaza após ser sequestrado por terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023. Agora, ele lança o livro Mufawadat – 505 dias no cativeiro do Hamas, revelando detalhes excruciantes de sua sobrevivência e o longo caminho da reconstrução emocional ao lado de sua noiva, Ziv Abud.
Sobrevivência sob correntes e privação extrema
A rotina de Eliya nos túneis era marcada pela escuridão quase absoluta e pela privação sensorial extrema, estando ele a cerca de 50 metros abaixo da terra. Durante a maior parte do tempo, ele permanecia acorrentado pelos pés com pesadas correntes de ferro, o que impedia qualquer movimento básico. O sono era um luxo inexistente; os captores instalavam luzes de LED nas paredes e gritavam periodicamente para garantir que os reféns não descansassem.
A fome era utilizada como uma ferramenta de tortura psicológica. Cohen relata que, muitas vezes, recebia apenas um pedaço de pão pita para ser dividido entre quatro pessoas por dia. "Você começa a ver seus próprios ossos, perde a força para falar ou andar", descreveu Eliya sobre o estado de inanição a que foi submetido. Segundo ele, enquanto os reféns emagreciam, os terroristas comiam fartamente diante deles, negando até mesmo um gole extra de água.
Agressões físicas também eram constantes, acompanhadas de simulações de execução onde os captores apontavam armas e exigiam "últimas palavras" apenas para rir do terror das vítimas.
A negociação diária pela sanidade mental
O título da obra, Mufawadat, significa "negociação" em árabe, termo que Eliya escolheu para definir sua experiência no cativeiro. Para ele, a negociação não era apenas diplomática para sua soltura, mas uma batalha diária por necessidades básicas, como luz ou o uso do banheiro, permitido apenas uma vez ao dia.
Em um episódio peculiar, ele negociou pedaços extras de pão em troca de cortar o cabelo e a barba dos próprios terroristas, após eles terem gostado do corte que ele fez em um colega de cela. Entretanto, a negociação mais profunda era interna. Para manter a lucidez em um ambiente desumano, Eliya construía diálogos imaginários com sua companheira, Ziv, e escrevia cartas mentais implorando por forças.
"Eu dizia a mim mesmo que a vida continuaria, com ou sem mim, e eu não queria perder a oportunidade de voltar para a minha", explica ele sobre como evitava pensamentos suicidas. O israelense também buscava pequenas vitórias diárias, como conseguir duas horas extras de sono ou um pedaço de pão ligeiramente maior, para manter a esperança viva.
A força de Ziv Abud e o trauma pós-libertação
Enquanto Eliya lutava no subsolo, Ziv Abud enfrentava seu próprio inferno. Ela sobreviveu ao ataque inicial escondendo-se sob uma pilha de corpos em um abrigo no deserto onde ocorreu o festival de música, onde viu seu sobrinho de 19 anos ser assassinado. Dos 29 jovens que estavam no local, apenas sete sobreviveram.
Ziv passou meses sem saber se o noivo estava vivo, transformando sua dor em uma mobilização internacional. Ela viajou o mundo, falando no Parlamento britânico e na Casa Branca, usando um vestido vermelho em fotos virais para lembrar que Eliya não era apenas um cartaz, mas um homem com uma família que o esperava.
"Eu mudei toda a minha mentalidade para ser como um robô, para deletar meus sentimentos, deletar o luto, deletar tudo apenas para focar no Eliya e no que eu faria no dia seguinte para trazê-lo para casa", disse ela. "Eu lutei por ele mesmo sem saber se receberia de volta um corpo ou um homem... Eu lutei como uma cega, apenas para trazer meu amor de volta."
As sequelas físicas e psicológicas persistentes
A libertação, contudo, não significou o fim do sofrimento. Eliya carrega sequelas físicas, como estilhaços de bala na perna e lesões graves no ombro por dormir no chão duro, mas são as marcas psicológicas as mais persistentes. Gatilhos simples, como ver comida, provocam suores frios, falta de ar e confusão mental.
Ele também enfrentou uma profunda culpa de sobrevivente, recusando-se a fazer cirurgias necessárias até que outros companheiros de túnel fossem libertados. Apesar dos traumas, o casal vê sua união como uma "vitória" sobre o terror. Eles planejam se casar em agosto, reafirmando o compromisso que quase foi interrompido pela tragédia.
Eliya agora dedica-se a compartilhar sua história para garantir que o mundo não esqueça o que aconteceu. O lançamento de seu livro no Brasil ocorreu na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis, em São Paulo, na última quarta-feira 25, em mais um passo no processo de cura e memória. Para ele, escrever foi a forma encontrada para "ajustar o cérebro" e mostrar que é possível encontrar luz mesmo nos labirintos mais sombrios da crueldade humana.



