Estratégias de Trump no conflito com Irã seguem manual de negociação de seu livro
Na última terça-feira (7), o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump emitiu um ultimato dramático ao Irã, exigindo a abertura do Estreito de Ormuz sob ameaça de que "toda uma civilização morreria naquela noite". No entanto, em uma reviravolta característica, apenas dez horas depois ele anunciou a suspensão da ameaça após negociações com autoridades iranianas.
Do mercado imobiliário à política internacional
Para analistas de direito internacional, as ameaças feitas por Trump poderiam configurar crimes de guerra se implementadas. O que muitos observadores não percebem é que a origem dessa abordagem não está na diplomacia tradicional, mas nas estratégias desenvolvidas por Trump durante sua carreira no mercado imobiliário de Nova York nas décadas de 1970 e 1980.
Essa conduta aparentemente contraditória segue precisamente os padrões de negociação que o próprio Trump descreve em seu livro "Trump: The Art of the Deal", publicado em português como "A Arte da Negociação". A obra, escrita em parceria com o jornalista Tony Schwartz e lançada em novembro de 1987, reúne os princípios que nortearam as negociações de Trump como empreendedor nos Estados Unidos.
A estratégia de "pedir o mundo"
Em mais de 400 páginas, um traço se destaca particularmente e ajuda a explicar sua atuação no atual conflito no Oriente Médio: a tática de partir de exigências máximas, mirando sempre o limite mais alto possível para, a partir desse ponto, conduzir a negociação.
No livro, o republicano defende explicitamente a estratégia de "pedir o mundo" — iniciar negociações com exigências extremas para deslocar o centro da discussão e garantir vantagem mesmo após eventuais concessões. Ao atrelar a reabertura de uma das principais rotas globais de petróleo a um prazo curto e a uma ameaça de destruição em larga escala, Trump elevou o custo da recusa iraniana ao limite absoluto.
Ele chegou a afirmar que os iranianos conheceriam o "inferno" e que poderia eliminar o país inteiro em uma única noite. Em sua obra, Trump relata como utilizou essa abordagem maximalista durante o projeto do hotel Grand Hyatt em Nova Iorque: "fui lá e pedi o mundo — uma isenção fiscal sem precedentes — partindo do princípio de que, mesmo que fosse reduzida, a redução ainda seria suficiente".
O "blefe" como ferramenta de negociação
Trump ainda descreve seu estilo de negociação como um "jogo de pôquer de apostas altas" em que se é forçado a fazer um "blefe" quando não se tem cartas fortes. Essa analogia parece especialmente relevante no contexto das tensões internacionais, onde a percepção de força pode ser tão importante quanto a capacidade militar real.
Às vezes é preciso "ser selvagem"
A ideia de aniquilação total do território iraniano também dialoga com outra tática descrita por Trump: a de "ser um pouco selvagem". Trata-se de adotar um discurso deliberadamente agressivo ou desproporcional para desestabilizar quem estiver do outro lado da mesa e forçar uma resposta rápida, especialmente em cenários de impasse.
No livro, Trump narra uma negociação envolvendo uma fazenda prestes a ser leiloada nos Estados Unidos. A propriedade pertencia a uma mulher que enfrentava dificuldades financeiras após a morte do marido, e o banco já havia decidido executar a hipoteca sem margem para negociação.
Segundo o relato, após uma abordagem convencional falhar, Trump mudou radicalmente de estratégia e adotou um tom muito mais agressivo, ameaçando processar o banco e o funcionário pessoalmente com uma acusação extrema ligada à morte do marido da proprietária. A reação foi imediata: o representante do banco recuou e mostrou disposição para negociar.
Tensões persistem no Oriente Médio
No entanto, as táticas de manual parecem estar encontrando um adversário menos maleável no cenário internacional do que um executivo bancário. Mesmo com o acordo de cessar-fogo mediado pelo Paquistão, as tensões na região continuam elevadas.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou nesta quarta-feira (8) que o cessar-fogo com os EUA foi rompido dentro do território iraniano, confirmando que duas ilhas iranianas — Lavan e Siri — foram bombardeadas. Paralelamente, Israel intensificou sua ofensiva no sul do Líbano com bombardeios que deixaram mais de 250 mortos.
Classificados pelo Exército israelense como "a maior onda de ataques" na guerra contra o grupo extremista Hezbollah, os bombardeios atingiram a capital Beirute e outras regiões do país. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já havia afirmado que o Líbano não fazia parte do acordo de cessar-fogo firmado entre Irã e Estados Unidos, indicando que as operações militares no território libanês seguiriam à parte das negociações.
Especialistas alertam que, enquanto as estratégias de negociação de Trump podem ter funcionado no mundo dos negócios, sua aplicação em conflitos internacionais carrega riscos significativamente maiores, com consequências que podem afetar milhões de pessoas e alterar equilíbrios geopolíticos estabelecidos há décadas.



