Ataque de drones atinge refinaria no Bahrein e acende alerta sobre infraestrutura hídrica
Uma usina de dessalinização no Bahrein foi danificada no domingo (8) após um ataque de drones iranianos, conforme confirmaram autoridades locais. O incidente ocorre em meio a tensões crescentes na região, onde ataques à infraestrutura hídrica têm se tornado mais frequentes, apesar de historicamente raros em cenários de conflito.
Importância estratégica da água dessalinizada
Em uma das regiões mais áridas do planeta, onde o acesso à água é dez vezes menor que a média global segundo o Banco Mundial, as usinas de dessalinização desempenham papel vital. Cerca de 42% da capacidade mundial de dessalinização está concentrada no Oriente Médio, de acordo com estudo publicado na revista Nature.
Os números revelam a dependência regional: nos Emirados Árabes Unidos, 42% da água potável vem dessas usinas, percentual que sobe para 70% na Arábia Saudita, 86% em Omã e 90% no Kuwait, conforme relatório de 2022 do Instituto Francês de Relações Internacionais.
"Lá, sem água dessalinizada, não há nada", afirmou a economista especializada em recursos hídricos Esther Crauser-Delbourg à AFP. A especialista alerta que "quem se atrever a atacar a água desencadeará uma guerra muito mais devastadora do que a atual".
Vulnerabilidades e medidas de segurança
As usinas de dessalinização enfrentam múltiplas ameaças além de ataques diretos:
- Cortes de energia que podem paralisar operações
- Contaminação da água do mar por vazamentos de petróleo
- Ataques com drones ou mísseis
Philippe Bourdeaux, diretor da região África/Oriente Médio da empresa francesa Veolia, explicou que "a segurança e os controles de acesso no perímetro imediato das usinas foram reforçados". A empresa fornece água dessalinizada para a Arábia Saudita em Jubail e para Omã em várias regiões.
"Obviamente, os eventos recentes nos deixaram muito vigilantes. Estamos monitorando de perto a situação nas instalações", acrescentou Bourdeaux, revelando que "em alguns países, as autoridades implantaram baterias de mísseis ao redor das maiores usinas".
Precedentes históricos e consequências potenciais
Nos últimos dez anos, diversos ataques a usinas de dessalinização foram registrados:
- Conflitos entre Iêmen e Arábia Saudita com ataques mútuos
- Bombardeios israelenses em Gaza atingindo infraestrutura hídrica
- Antes de 2016, é necessário voltar à Guerra do Golfo de 1991 para encontrar ataques semelhantes
As consequências de interrupções prolongadas podem ser catastróficas. Uma análise da CIA em 2010 alertou que "a interrupção das instalações de dessalinização na maioria dos países árabes poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou matéria-prima".
Documentos do WikiLeaks revelaram telegrama diplomático dos EUA afirmando que "Riade deveria ser evacuada em uma semana" caso a usina de dessalinização de Jubail fosse gravemente danificada.
Medidas de mitigação e cenários futuros
Segundo Bourdeaux, existem mecanismos para reduzir impactos:
- Usinas interconectadas que permitem redistribuição de água
- Reservas estratégicas para dois a sete dias de consumo
- Ferramentas para mitigar efeitos de vazamentos de petróleo
No entanto, Crauser-Delbourg alerta para cenários extremos: "Podemos ver grandes cidades em êxodo. E depois racionamentos". Efeitos em cadeia afetariam turismo, indústria e centros de dados que dependem de grandes quantidades de água para refrigeração.
O ataque no Bahrein ocorreu um dia depois de Teerã acusar o país de ofensiva similar em Qeshm, no Irã, que teria afetado o abastecimento de água de 30 vilarejos. Estes eventos destacam como a infraestrutura hídrica tornou-se alvo estratégico em conflitos regionais, com potencial para escaladas perigosas em uma das regiões mais dependentes de tecnologia de dessalinização do mundo.



