Risco de martírio político e crise diplomática ameaçam governo Lula
A gradual deterioração da saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro representa um risco político significativo para a campanha eleitoral de 2026, podendo transformar o cenário político brasileiro em um campo de batalha simbólico onde a direita tentaria enforcar Lula como algoz e aclamar Bolsonaro como mártir.
O dilema da saúde de Bolsonaro
Se uma tragédia sobrevier à condição médica de Jair Bolsonaro, a campanha eleitoral estará condenada a transformar o palanque em cadafalso político. A direita pretenderá utilizar esse evento para atacar Lula, enquanto os ministros do Supremo Tribunal Federal, que condenaram o ex-presidente à prisão, assistiriam de camarote ao possível naufrágio nas urnas, já que não dependem de votos populares.
Nesta altura do ano eleitoral, um eventual martírio seria receita certa para se transformar numa avalancha contra o governo e num atropelo inevitável da candidatura de Lula. A saúde de Bolsonaro, como demonstrado recentemente, recomenda no mínimo o cumprimento da pena em prisão domiciliar, criando um cenário delicado para o atual governo.
O estilo de liderança de Lula
Quando se trata de falar aos eleitores, nunca se sabe quem tem maior influência no discurso e nas decisões do atual presidente. Para alguns analistas, parece que a última palavra é uma singular versão de monólogo, com Lula falando consigo mesmo. O presidente, que constantemente se jacta de não ostentar diplomas formais, compensa os poucos estudos com o poder da intuição, embora nem sempre com resultados positivos.
Estranho é que essa capacidade de percepção não o leve a retirar da oposição a poderosa bandeira da anistia, muito mais útil para influir quando os ventos sopram para a radicalização política. Por iniciativa própria ou por influência junto aos amigos do Supremo Tribunal, o desarmamento das tensões políticas poderia elevá-lo à posição de estadista superior.
Crise nas relações com os Estados Unidos
Enquanto isso, Congresso Nacional, governadores e entidades de representação social e econômica continuam mostrando desânimo para discutir o problema da deterioração nas relações do Brasil com os Estados Unidos. As consequências imediatas ou futuras desse esfriamento diplomático, além dos impasses políticos entre Brasília e Washington, revelam-se cada dia mais sérios.
As dificuldades nascem de ressentimentos provocados por mútuas antipatias com inspiração no campo ideológico, logo evoluídas para desconfianças no trato das questões de estado. Disso ficou a certeza de que antigas alianças já não são as mesmas, reduzidas quase sempre ao mínimo das formalidades diplomáticas.
Pontos de atrito específicos
Sobretaxação americana: A progressão das dificuldades ganhou força na sobretaxação imposta pelos Estados Unidos, prejudicando parte sensível das exportações brasileiras. Tinha tudo para se limitar a um fato comum e isolado, mas não conosco, porque desde então evoluímos para os apelos à discórdia.
Posicionamento internacional: As relações tornaram-se mais frias quando o governo brasileiro deixou claro que, no embate dos Estados Unidos com a ditadura teocrática do Irã, as simpatias brasileiras tendiam para o regime dos aiatolás. Concomitantemente, cresceram as malquerenças com Israel, também uma contraposição ao governo Trump na época.
Caso Venezuela: Os americanos ainda se aborreceram quando a Venezuela foi invadida e preso, como bandido comum, o presidente Maduro, amigo em quem Lula devotava especial admiração. Inaceitável a intervenção armada, o Brasil protestou, mesmo com pouca ênfase.
Programa Escudo das Américas e novas tensões
O lance mais recente foi o lançamento do programa Escudo das Américas, para que aliados em torno de um objetivo único, 12 países do continente possam reagir ao crime organizado. Para o lançamento solene, ausentes Brasil, Colômbia e México, como se fossem peças estranhas a uma questão de tamanho interesse continental.
Veio a ironia: Trump justificou, dizendo que nosso governo estava ocupado. Quanto ao nosso lado, um desafio assessório para incomodar foi Washington definir, formalmente, como terroristas os indesejáveis PCC e CV, o que, no entendimento de Brasília, é porta aberta para eventual intervencionismo militar.
Os americanos riem quando argumentamos que sabemos como cuidar dos nossos criminosos, salvo se escaparem para atividades transnacionais. A ideia predominante em Washington é que Brasília não tem como combater o crime organizado, intrometido nas entranhas do poder.
Incidente diplomático recente
Ao Escudo de Trump vem um segundo impasse: alto funcionário do Departamento de Estado, Darren Beattie, pretendendo conferenciar com o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi proibido de desembarcar no Brasil. Nada demais, não fosse o fato de Bolsonaro ser o símbolo do antilulismo em ano eleitoral.
Darren foi impedido, e já se sabe que isso doeu nos assessores do Departamento de Estado. A soma dessas dificuldades, que preocupam porque se ampliam cada vez mais, mostra que o assunto merece ser pautado por todas as classes responsáveis, a começar pelas casas políticas do Congresso Nacional.
