Lula revoga decreto de privatização de hidrovias amazônicas após pressão social
Lula cancela privatização de hidrovias na Amazônia após pressão

Lula revoga decreto de privatização de hidrovias amazônicas após pressão social

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou a revogação do decreto que previa a privatização de três importantes hidrovias na região amazônica. A medida, anunciada na abertura do ano eleitoral, ocorreu após intensa pressão de movimentos sociais, comunidades indígenas, parlamentares e até mesmo de ministros do próprio governo.

O decreto original e as hidrovias envolvidas

Em agosto do ano passado, Lula havia assinado o decreto nº 12.600, que incluía três empreendimentos públicos federais no Programa Nacional de Desestatização:

  • Hidrovia do rio Madeira: trecho navegável de 1.065 quilômetros entre Porto Velho (RO) e Itacoatiara (AM), na foz do rio Amazonas
  • Hidrovia do rio Tocantins: 1.731 quilômetros entre Belém e o município de Peixe (TO)
  • Hidrovia do rio Tapajós: 250 quilômetros entre as cidades paraenses de Itaituba e Santarém

Vinte e cinco semanas após a assinatura do decreto, o presidente decidiu anular sua própria determinação, em um movimento que surpreendeu o setor privado e revelou fissuras internas no governo.

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Pressão social e protestos coordenados

A revogação foi resultado de um movimento coordenado de entidades não governamentais, com apoio significativo de parlamentares do PT, Psol e PcdoB, além de uma ala do próprio ministério. Os protestos se intensificaram nas semanas anteriores à decisão, com indígenas da Amazônia organizando manifestações que chegaram até São Paulo.

Um mês antes da revogação, a ofensiva contra os interesses do governo serviu de pretexto para o bloqueio parcial do acesso aos armazéns paraenses da Cargill, uma das maiores multinacionais do comércio de commodities. No fim de semana anterior ao anúncio, o terminal portuário da empresa em Santarém, no oeste do Pará, foi invadido por manifestantes, obrigando a empresa a acionar seu plano de emergência e evacuar funcionários.

Boulos assume protagonismo na revogação

Guilherme Boulos, chefe da Secretaria-Geral da Presidência, assumiu publicamente o protagonismo do cancelamento do decreto. "Após me reunir com os povos indígenas do Tapajós, Tocantins e Madeira", declarou Boulos, "conseguimos reverter essa decisão".

O rosário de queixas no Palácio do Planalto sugere que Boulos obteve aval direto de Lula sem consultar adequadamente a Casa Civil e os ministérios da Fazenda, Portos e Aeroportos. Aparentemente, ele atropelou vários ministros que estavam engajados na atração de investimentos privados para expansão da infraestrutura através de contratos de concessões públicas.

Falta de coordenação e desconfiança no setor privado

A revogação foi formalizada com a assinatura do vice-presidente em exercício, Geraldo Alckmin, e do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho. Boulos celebrou a decisão em tom eleitoral: "Esse é um governo que tem compromisso com a escuta do povo, com a escuta dos trabalhadores, com a escuta dos povos indígenas. Esse é um governo, inclusive, que leva a escuta ao ponto de recuar de uma decisão própria, por entender, compreender a posição desses povos".

No entanto, a falta de coordenação no governo levou a um impasse social significativo e neutralizou esforços de vários ministérios para montagem de parcerias com empresas privadas em áreas atrofiadas, como é o caso do sistema de transporte hidroviário na Amazônia.

Consequências e críticas

O governo também não demonstrou preocupação evidente com a invasão e ocupação das instalações da Cargill, nem empatia com os trabalhadores da empresa estrangeira que, segundo alegações oficiais, não teria "ingerência" sobre o foco das reivindicações dos manifestantes.

Analistas políticos apontam que Lula semeou desconfiança sobre o próprio governo com essa reversão abrupta de política. De um lado, a medida atendeu a demandas sociais importantes; de outro, criou insegurança jurídica para investidores que planejavam participar das concessões.

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A revogação do decreto de privatização das hidrovias amazônicas expôs as tensões internas do governo e a complexidade de equilibrar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e direitos indígenas na região mais biodiversa do planeta.