Movimentação partidária redefine forças políticas na Câmara dos Deputados
O encerramento da janela partidária provocou transformações significativas na composição de dois dos principais partidos brasileiros na Câmara dos Deputados. O período de trocas, que terminou na última sexta-feira (3), alterou profundamente o perfil das bancadas do PSD e do União Brasil, com reflexos diretos na dinâmica política do Congresso Nacional.
PSD se fortalece no Nordeste e se aproxima do governo Lula
O Partido Social Democrático (PSD), que tem Ronaldo Caiado como pré-candidato à Presidência da República, registrou um saldo positivo de dois deputados após intensa movimentação em suas fileiras. A legenda, liderada por Gilberto Kassab, viu 14 parlamentares abandonarem a sigla enquanto recebeu 16 novos filiados, totalizando agora 49 assentos na Câmara.
A mudança mais marcante no PSD foi a nordestinização de sua bancada. Cerca de 40% dos deputados do partido agora representam estados do Nordeste, totalizando 20 parlamentares. Essa região, onde políticos do centrão tradicionalmente se alinham ao presidente Lula devido à popularidade do petista, passou a ter a maior representatividade na bancada do PSD.
Dos 16 recém-filiados, seis são eleitos por estados nordestinos, incluindo figuras como o deputado Túlio Gadêlha (PE), conhecido por sua forte identificação com a esquerda e com o atual presidente. Em contrapartida, o Sudeste reduziu sua representação de 15 para 13 deputados (26% da bancada), enquanto o Sul passou de 9 para 8 parlamentares.
Consequências políticas da nova configuração do PSD
Segundo lideranças do partido ouvidas sob reserva, a transformação no perfil da bancada tende a aproximá-la naturalmente do governo Lula. Atualmente, o PSD ocupa três ministérios na gestão petista: Pesca, Agricultura, e Minas e Energia.
A mudança também deve aumentar a resistência interna a Ronaldo Caiado. A maior parte das lideranças nordestinas do partido fará campanha abertamente para Lula já no primeiro turno, mesmo com a legenda tendo candidato próprio. Na prática, o ex-governador de Goiás não poderá contar com o apoio de correligionários em seu palanque ou na busca por votos nos estados do Nordeste.
Internamente, o novo perfil deve facilitar a adesão do PSD a pautas governistas. O partido contava com uma ala bolsonarista mais identificada com a direita, mas a maior parte desse grupo migrou para o PL em busca do número "22" na urna. Outros deputados do Paraná deixaram a sigla após a desistência do governador Ratinho Junior da corrida presidencial.
União Brasil perde força numérica mas busca mais coesão
O União Brasil saiu numericamente menor da janela partidária, registrando a maior movimentação entre todas as legendas. O partido perdeu 29 deputados e filiou 21, reduzindo sua bancada de 59 para 51 representantes – uma diminuição de oito cadeiras.
O Partido Liberal (PL) foi o destino preferido dos parlamentares que deixaram a sigla do centrão, recebendo nove deputados. Dois ex-ministros do governo Lula também abandonaram a agremiação: Celso Sabino (Turismo) migrou para o PDT do Pará, enquanto Juscelino Filho (Comunicações) agora é filiado ao PSDB do Maranhão.
A avaliação interna é que, apesar da redução numérica, a saída dos bolsonaristas e dos ex-ministros petistas deve diminuir os conflitos internos. Em diversas ocasiões, a ala de direita se desentendeu com parlamentares de centro, que por sua vez buscavam evitar um alinhamento automático com Lula.
Novo perfil e estratégias partidárias
Segundo caciques da sigla, o União Brasil se transformou em uma legenda mais tradicional do centrão, com maior coesão para atuar em bloco e definir posições sobre projetos e pautas na Câmara. Essa unidade deve facilitar negociações com o partido no âmbito legislativo.
O partido, porém, precisou fazer esforços significativos para não encolher ainda mais. Durante a janela, chegou a ter saldo negativo de 16 parlamentares, mas o fundo eleitoral da sigla atraiu deputados na reta final. O presidente do partido, Antônio Rueda, chegou a telefonar pessoalmente para convidar congressistas a se filiarem.
Contexto da janela partidária e seus impactos
A janela partidária é o período em que deputados federais e estaduais podem trocar de partido sem risco de perder o mandato por infidelidade, pois a Justiça Eleitoral entende que o mandato pertence aos partidos. Senadores, por sua vez, podem mudar de legenda a qualquer tempo.
Aberto em março e encerrado em abril, o período ocorre seis meses antes das eleições, marcadas para outubro. Ao menos 121 dos 513 deputados trocaram de partido nesta janela, número que pode aumentar considerando mudanças ainda não informadas à direção da Câmara.
Ter um grande número de deputados fortalece partidos nas negociações políticas para candidaturas e facilita a eleição de bancadas maiores. As mudanças atuais não impactam a divisão do fundo eleitoral, rateado proporcionalmente aos votos para a Câmara e ao número de deputados eleitos por cada legenda em 2022.
Enquanto possuir mais deputados traz vantagens políticas, também representa o desafio de distribuir recursos do fundo eleitoral para mais pessoas. Para os partidos que perderam parlamentares, a aposta é que a verba garantida na eleição anterior ajude na eleição de novos representantes.



