Indígenas bloqueiam BR-163 e acesso ao aeroporto de Santarém em protesto contra decreto federal
Indígenas bloqueiam BR-163 e aeroporto de Santarém em protesto

Indígenas bloqueiam BR-163 e acesso ao aeroporto de Santarém em protesto contra decreto federal

Um protesto realizado por povos indígenas bloqueou, nesta quarta-feira (4), a principal via de acesso ao Aeroporto Internacional de Santarém, localizado no oeste do estado do Pará. A manifestação, que já se estende por 14 dias na região, também interditou trechos da BR-163, uma das rodovias mais importantes da Amazônia, causando congestionamentos severos, atrasos significativos e prejuízos econômicos para passageiros, trabalhadores e moradores da cidade.

Transtornos no trânsito e no aeroporto

O bloqueio na rodovia Fernando Guilhon, que dá acesso ao terminal aeroportuário, impediu a entrada de passageiros para voos noturnos e também de funcionários que necessitavam transitar pela via para chegar ao local de trabalho. A situação agravou os transtornos já existentes, resultando em uma longa fila de veículos que se formou rapidamente, deixando motoristas retidos por horas a fio.

José Diogo de Aguiar, um motorista que tentava retornar do aeroporto, relatou ter ficado preso por mais de duas horas. "Eu vim pegar um cliente aqui no aeroporto e, quando a gente ia voltando, já estava tudo interditado. Não tem previsão pra liberar", afirmou ele, demonstrando a frustração compartilhada por muitos.

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Passageiros que desembarcaram em Santarém enfrentaram dificuldades adicionais, sendo forçados a seguir o trajeto a pé ou depender de ajuda externa para conseguir chegar aos seus destinos. Igelvane de Souza, uma aposentada com dificuldades de locomoção, contou ter perdido um compromisso importante devido ao bloqueio. "A gente fica impactada. Tenho dificuldade pra andar, então complica ainda mais. Mas, apesar disso, sou totalmente a favor da causa", declarou, destacando a complexidade do cenário.

Motivações do protesto indígena

O bloqueio faz parte de uma mobilização organizada por indígenas da região do Tapajós, que se opõem a um decreto do governo federal. Segundo os manifestantes, o documento abre caminho para a dragagem do rio Tapajós e a possível privatização de hidrovias, sem que tenha havido uma consulta prévia às comunidades tradicionais afetadas.

Alessandra Munduruku, uma liderança indígena, enfatizou que qualquer intervenção no rio teria impactos profundos, que vão além das questões ambientais. "Quando mexe com o rio, mexe com o nosso mundo espiritual. O Tapajós é vida, é saúde, é o caminho para as aldeias. Ninguém quer dragagem no rio Tapajós", afirmou ela, ressaltando a conexão cultural e espiritual dos povos com o território.

Auricélia Arapiun, outra representante indígena, alertou para os riscos de privatização. "É um decreto de privatização. O rio pode passar para a iniciativa privada fazer o que quiser, sem respeitar quem sempre viveu aqui", disse, expressando preocupações sobre a perda de controle sobre recursos naturais essenciais.

Posicionamento das autoridades

Enquanto o impasse continua, o bloqueio segue causando transtornos à população de Santarém, especialmente para aqueles que dependem do aeroporto para trabalho, saúde e compromissos pessoais. Até o momento, não há uma previsão clara para a liberação total da via.

O Ministério de Portos e Aeroportos emitiu uma nota informando que o governo federal está em diálogo direto com as lideranças indígenas presentes no Baixo Tapajós desde o início da mobilização. A pasta destacou que o decreto em questão autoriza apenas estudos sobre ações e serviços no Tapajós, e que nenhuma iniciativa relacionada à concessão ou dragagem avançará sem o devido processo de Consulta Prévia, Livre e Informada, conforme a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Por sua vez, a Aena, empresa responsável pela gestão do aeroporto, afirmou que acompanha a situação e já acionou as autoridades federais para adotarem as medidas cabíveis. A empresa ressaltou que, até o momento, não houve impacto direto nas operações aeroportuárias, embora os acessos terrestres tenham sido severamente afetados.

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A mobilização indígena em Santarém reflete tensões mais amplas sobre desenvolvimento, direitos territoriais e preservação ambiental na Amazônia, com repercussões imediatas na vida cotidiana da região.