Emendas Pix: R$ 61 milhões para shows em 2025 levantam suspeitas de superfaturamento e uso político
Emendas Pix: R$ 61 milhões para shows em 2025 sob suspeita

Emendas parlamentares financiam shows com R$ 61 milhões em 2025, gerando alertas sobre irregularidades

Um levantamento exclusivo revelou que parlamentares enviaram R$ 61 milhões em emendas Pix para custear espetáculos musicais em 2025, com destaque para artistas como Wesley Safadão, Leonardo e Bell Marques. O montante, distribuído em 131 emendas, levanta sérias suspeitas de superfaturamento de cachês, desvio de finalidade e uso político do dinheiro público, colocando o esquema na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Polícia Federal (PF).

Casos emblemáticos expõem opacidade e possíveis abusos

Em março de 2025, Wesley Safadão se apresentou em Malhador, Sergipe, com um cachê de R$ 900 mil bancado por uma emenda do deputado Rodrigo Valadares. Com apenas 11.712 habitantes, o município teria que cobrar R$ 75 por ingresso para cobrir o valor, o que não ocorreu. O prefeito Assisinho (PSD) subiu ao palco, tocou bateria e, posteriormente, agradeceu publicamente ao deputado, reforçando laços políticos.

Outros exemplos incluem Mikael Santos, que realizou nove shows custeados por verba federal, com média de R$ 200 mil por apresentação, e Amado Batista, que se apresentou em cidades sergipanas com populações combinadas abaixo de 40 mil pessoas. O Sergipe concentra quase metade das emendas para shows, com o deputado Gustinho Ribeiro (PP-SE) como maior destinador, enviando quase R$ 5 milhões, incluindo uma emenda de R$ 2,87 milhões para Estância, da qual apenas um evento ocorreu até o momento.

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Falta de transparência e iniciativas de controle

Apesar de regras mais rígidas de transparência impostas pelo STF, muitos valores continuam sem prestação de contas meses após os eventos. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) propôs um projeto de lei para obrigar prefeituras a publicar antecipadamente cachês, datas, locais, custos de infraestrutura, estimativa de público e justificativas. "Vemos shows contratados com cachês exorbitantes, incompatíveis com o mercado e sem planejamento", afirma Vieira, que, ironicamente, liberou cerca de R$ 2 milhões para espetáculos em Sergipe em 2025.

Especialistas criticam o uso político das emendas. Marcelo Flores, da ESPM, defende que o debate deveria focar em acesso sustentável à cultura, enquanto Sergio Firpo, do Insper, alerta que a baixa transparência aumenta o poder discricionário de prefeitos, desalinhando gastos de prioridades como saúde e educação.

Investigações e superfaturamento em destaque

Em janeiro de 2026, a ministra Cármen Lúcia autorizou uma operação da PF contra o deputado Eduardo Velloso (União-AC), investigado por superfaturamento de R$ 900 mil em um contrato de R$ 1,3 milhão para shows em Sena Madureira, Acre. Simultaneamente, Flávio Dino questionou produtoras que se beneficiaram de emendas Pix e renúncias fiscais, deixando de pagar R$ 90 milhões em impostos, classificando shows com emendas como um "ponto de atenção".

O Tribunal de Contas do Tocantins barrou uma apresentação de Bruno & Marrone em Axixá do Tocantins, contratada por R$ 1,1 milhão com emendas destinadas a infraestrutura, evidenciando desvio de finalidade e indícios de sobrepreço. Na Bahia, a União dos Municípios firmou acordo com o Ministério Público para impor teto de R$ 700 mil para shows juninos, após um espetáculo de Safadão custar R$ 1 milhão em Tucano, com metade financiada por emenda do deputado Ricardo Maia (MDB), pai do prefeito.

Crescimento das emendas e alertas para transparência

Desde 2015, quando se tornaram impositivas, as emendas saltaram de R$ 3,4 bilhões para R$ 61 bilhões em 2026, com proliferção de maus exemplos como corrupção e exploração eleitoral. Recentemente, Dino autorizou a PF a cumprir 42 mandados de busca para apurar desvios envolvendo o ex-senador Fernando Bezerra Coelho e familiares.

Ana Claudia Santano, da Transparência Eleitoral Brasil, avalia que está surgindo um sistema paralelo de financiamento de campanha via emendas, enquanto Bruno Bondarovsky, da Central das Emendas, critica a prática como estratégia eleitoral disfarçada de política pública. A folia das emendas destaca a urgência de maior transparência, pois, apesar de possíveis ganhos sociais, a condução não pode ficar sujeita a interesses políticos com poder ilimitado sobre recursos públicos.

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