Conflito entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira gera crise na direita em ano eleitoral
Embate na direita ameaça campanha de Flávio Bolsonaro em 2026

Conflitos internos agitam o bolsonarismo em ano decisivo

O movimento bolsonarista enfrenta uma de suas maiores crises internas desde sua consolidação como força política dominante na direita brasileira. Embates públicos entre duas de suas principais figuras, Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira, aliados à posição dúbia da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, ameaçam a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em um momento crucial das eleições de 2026.

O início do fogo amigo

A crise teve início com uma publicação de Nikolas Ferreira nas redes sociais, onde o deputado mineiro atacava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e atribuía a criação do Pix ao governo Jair Bolsonaro. O problema surgiu quando Nikolas compartilhou o post junto com conteúdo de um perfil de direita que não é considerado aliado pelo núcleo duro do bolsonarismo.

"Denunciei que o 'Spaces Liberdade' não votará em Flávio Bolsonaro — ao menos no primeiro turno. Adivinhem quem prontamente compartilhou o perfil no mesmíssimo dia?", acusou Eduardo Bolsonaro em suas redes sociais.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

A resposta de Nikolas com um simples "kkk" aumentou ainda mais a tensão, levando Eduardo a escrever: "Risinho de deboche para mim, Nikolas? Ao que parece, não há limites para seu desrespeito comigo e minha família. Triste ver essa versão caricata de si mesmo".

Divisões no clã Bolsonaro

Enquanto Carlos Bolsonaro e Jair Renan se alinharam imediatamente ao lado de Eduardo, Michelle Bolsonaro adotou uma postura que tem sido interpretada como ambígua. No mesmo dia do embate entre os dois deputados, ela compartilhou um vídeo em que Nikolas falava sobre a Paixão de Cristo.

Este não foi um comportamento isolado da ex-primeira-dama. Em janeiro, quando Flávio Bolsonaro buscava apoio de caciques do centrão ainda desconfiados de sua pré-candidatura, Michelle compartilhou um vídeo do governador Tarcísio de Freitas criticando Lula — justamente quando o governador paulista era alvo de críticas dentro do próprio clã bolsonarista.

A ausência de Michelle na campanha de Flávio tem sido notada e preocupa especialmente Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que aposta na ex-primeira-dama para atrair eleitorado feminino e evangélico. "Michelle tem uma importância considerável no segmento conservador e consegue conversar com as mulheres, um nicho mais fraco da direita bolsonarista", analisa a cientista política Carolina de Paula, coordenadora do Monitor do Debate Público.

Batalha pela herança política

Os embates recentes revelam uma questão fundamental mal resolvida na direita brasileira: quem herdará o espólio eleitoral de Jair Bolsonaro. Enquanto Eduardo Bolsonaro se gaba de ser o deputado mais votado da história do país e mantém influência direta sobre o irmão presidenciável, Nikolas Ferreira possui alcance digital massivo, capacidade de mobilização da base jovem e, principalmente, autonomia política.

"Ele é um representante do bolsonarismo, mas não depende da família, e isso transforma o Nikolas numa coisa muito rara, um potencial sucessor que não é controlável. Ele pode se tornar maior que o próprio grupo que o ajudou a crescer", avalia Deysi Cioccari, cientista política do Ibmec-SP.

Preocupação com a imagem de unidade

O fogo amigo tem preocupado Flávio Bolsonaro em um momento crucial de sua campanha. No dia 4 de abril, o presidenciável divulgou uma gravação pedindo paz a seu campo político: "Estou gravando este vídeo para tentar chamar a todos para a racionalidade. É muito angustiante ver lideranças do nosso lado se digladiando enquanto a gente tem um país para resgatar e o inimigo não está aqui, está do lado de lá".

A imagem de um campo político conflagrado pode sabotar o plano de Flávio de apresentar uma candidatura moderada, essencial para atrair apoio de siglas como União Brasil, PP, Republicanos e Podemos, que ainda não decidiram seu posicionamento na corrida presidencial.

"Se não houver um choque de ordem vindo de cima, a direita vai viver um 2026 com três ou quatro nomes fortes se batendo, o que é o sonho de consumo do Lula", analisa o marqueteiro Wilson Pedroso, que trabalhou em campanhas de João Doria, Pablo Marçal e Bruno Covas.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Tentativas de pacificação

Nos últimos dias, Flávio e Nikolas tentaram fazer movimentos de reconciliação. Enquanto Eduardo seguia atacando Nikolas nas redes sociais, os dois deputados se encontraram em Brasília durante o lançamento de candidatos ao Congresso por Minas Gerais. No evento, estiveram lado a lado e trocaram elogios públicos.

"Obviamente todas as nossas candidaturas aqui, Flávio, vão te servir para você realmente derrotar o PT. Nós somos o mesmo time, com posições diferentes, mas contra o mesmo inimigo", declarou Nikolas Ferreira durante o encontro.

Desafio histórico

O cenário exige extrema cautela por parte de Flávio Bolsonaro. Se os embates sempre foram corriqueiros na direita desde a ascensão do bolsonarismo, agora há um agravante inédito: Jair Bolsonaro, o comandante histórico do movimento, está preso e não pode exercer seu papel unificador.

Flávio terá o desafio de mostrar que pode conduzir esse movimento a um pouso seguro em outubro, na pista da vitória eleitoral. É uma viagem política sujeita a muitas turbulências, onde a capacidade de manter a coesão interna pode definir o destino da campanha presidencial mais importante da direita brasileira desde 2018.

A história recente do bolsonarismo não estimula muitas ilusões sobre reconciliações fáceis: figuras como os ex-deputados Joice Hasselmann e Alexandre Frota, além dos ex-ministros Gustavo Bebbiano e Santos Cruz, caíram em desgraça após baterem de frente com o clã Bolsonaro. Agora, o movimento enfrenta seu teste mais difícil sem seu principal líder na linha de frente.