Disputa pelo voto evangélico se intensifica entre Lula e Flávio Bolsonaro nas eleições
Disputa pelo voto evangélico esquenta entre Lula e Flávio

Embate pelo voto evangélico esquenta entre Lula e Flávio Bolsonaro

O cenário político nacional vive um momento de intensa disputa pelo apoio do eleitorado evangélico, segmento que representa aproximadamente 27% do total de votantes segundo dados do IBGE. Enquanto no plano nacional as pesquisas apontam para um jogo mais definido, as batalhas estaduais se mostram menos óbvias e igualmente acirradas.

Lula enfrenta crescente rejeição entre os evangélicos

Desde seu retorno à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva tem empreendido diversos esforços para se aproximar dos evangélicos, grupo que demonstra maior resistência à sua figura política. Nos três primeiros anos de mandato, o petista participou de cultos, enviou emissários para dialogar com pastores das principais denominações, firmou convênios com igrejas independentes para distribuição de benefícios sociais e até indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias – criado nas fileiras da Igreja Batista – para o Supremo Tribunal Federal.

Os resultados, contudo, foram frustrantes. Atualmente, Lula conta com apenas 21% das preferências dos evangélicos, conforme pesquisa Datafolha, representando uma queda de 13 pontos percentuais em relação a 2022. Em contraste, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reúne impressionantes 48% do apoio deste segmento, posição que lhe garantiria vitória no primeiro turno se a eleição dependesse exclusivamente desses eleitores.

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Estratégias divergentes na conquista do eleitorado

Os estrategistas da campanha lulista apostam na melhora dos indicadores econômicos como forma de criar uma brecha no muro ideológico que separa o governo dos evangélicos. Considerando que a maior parte deste eleitorado é composta por mulheres, afrodescendentes e moradores da periferia – público tradicionalmente sensível a políticas sociais –, o pleno emprego, a isenção do imposto de renda e o fim da escala 6×1 devem ser destacados em peças publicitárias que ressaltem os ganhos para a família.

"Estamos ampliando o diálogo com os segmentos religiosos como um todo, com atenção especial para os evangélicos", afirma Gutierres Barbosa, coordenador nacional do Setorial Inter-religioso do PT.

Do outro lado, Flávio Bolsonaro trabalha para solidificar sua vantagem. Logo após anunciar a pré-candidatura, o senador participou de um culto na Comunidade das Nações, em Brasília, e, dias depois, banhou-se nas águas do Rio Jordão, em Israel, local onde foi batizado em 2016. A estratégia inclui aumentar os atos de fé e contar com a ajuda do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), ligado à Vitória em Cristo, braço assembleiano comandado pelo influente pastor Silas Malafaia.

Desafios ideológicos e comportamentais

A coesão do eleitorado evangélico ajuda a explicar a rejeição a Lula. Nenhum estrato da população se comporta de maneira tão uniforme nas urnas quanto os evangélicos, conforme análise de especialistas. O PT, apesar de reunir cerca de 500 mil militantes que frequentam igrejas protestantes, defende bandeiras como igualdade de gênero e legalização das drogas e do aborto, posições que colidem frontalmente com os valores de costumes pregados nos púlpitos.

"É evidente o desrespeito que parte da esquerda nutre por essa população, como se evangélicos fossem cidadãos de segunda categoria, incapazes de pensar por conta própria", reconhece Nilza Valeria Zacarias, coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, enfrenta o desafio de corrigir erros cometidos por seu pai na derrota para Lula. Entre as principais recomendações de assessores está moderar discursos que desagradam às mulheres, como a defesa da liberação da venda de armas, além de evitar a exaltação pessoal da figura de Jair Bolsonaro em detrimento de valores religiosos.

Cenário estadual apresenta dinâmicas complexas

Se no plano nacional o jogo parece mais definido, as disputas pelo voto evangélico se mostram menos óbvias nos estados, especialmente na Região Norte, onde a presença de crentes supera a média nacional. No Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país, os evangélicos correspondem a praticamente um terço do total de votantes e estão no centro das negociações de alianças.

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Após anos de apoio a Eduardo Paes (PSD), Silas Malafaia rompeu com o prefeito do Rio, favorito na corrida ao Palácio Guanabara. O líder religioso anunciou que dará suporte a Douglas Ruas (PL), candidato de Flávio Bolsonaro no berço político do bolsonarismo. Como reação, Paes escalou a evangélica Jane Reis, irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, para compor sua chapa como vice.

Sabatina de Messias no STF vira desafio para o governo

Um capítulo à parte nesta disputa se desenrola no Congresso Nacional, em torno da sabatina de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. O que era para ser um aceno ao eleitorado evangélico transformou-se em um problema de difícil solução para o governo. Embora o aspirante à toga mantenha contato quase diário com parlamentares da bancada evangélica, interlocutores já informaram que a identificação religiosa pode não ser suficiente para garantir sua aprovação.

"Há um histórico de desconfiança em relação ao PT e a setores radicais da esquerda", afirma o deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), presidente da Frente Parlamentar Evangélica.

Quando política e religião se misturam, nem sempre as diferenças ideológicas ficam em primeiro plano. Resta saber se o eleitor evangélico vai acreditar em qualquer movimento para conquistá-lo nesta que promete ser uma das batalhas mais acirradas das próximas eleições.