Eleição histórica gera protestos e debate sobre representatividade na Câmara
A deputada federal Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, foi eleita nesta quarta-feira, 11 de março de 2026, como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. Com essa vitória, ela se torna a primeira mulher transsexual a ocupar a presidência deste importante colegiado parlamentar, marcando um momento histórico na política brasileira.
Votação tensa com maioria de votos em branco
A eleição ocorreu em um clima de tensão e divisão entre os parlamentares. No primeiro turno da votação, com quórum de 22 deputados presentes, a chapa única liderada por Hilton recebeu apenas 10 votos favoráveis, enquanto 12 parlamentares optaram por votar em branco como forma de protesto. No segundo turno, com 21 deputados presentes, o resultado foi de 11 votos a favor e 10 em branco, confirmando a vitória da deputada do PSOL.
O acordo político que determinou a distribuição dos comandos das comissões da Casa havia estabelecido que a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher ficaria com o PSOL, que indicou o nome de Erika Hilton para o cargo. A deputada Laura Carneiro, do PSD do Rio de Janeiro, foi eleita primeira vice-presidente, enquanto Adriana Accorsi, do PT de Goiás, e Socorro Neri, do PP do Acre, assumiram como segunda e terceira vice-presidentes, respectivamente.
Críticas da direita questionam representatividade
Parlamentares identificados com a direita política manifestaram forte oposição à eleição de Hilton, argumentando que uma mulher trans não poderia representar adequadamente os anseios das mulheres cisgênero do Brasil. A deputada Clarissa Tércio, do PP de Pernambuco, foi uma das mais veementes em suas críticas após a confirmação do resultado.
"Não tenho como parabenizar o que aconteceu aqui hoje. Porque a deputada assume essa cadeira com um peso muito grande, de ter dividido essa comissão, de ter tido 12 votos em branco, ou seja, a maioria contrária à sua eleição", afirmou Tércio durante sessão da comissão. "Tenho certeza, se essa eleição ocorresse com as mulheres do Brasil, as mulheres biológicas, com toda a certeza você não estaria sentada nessa cadeira."
A parlamentar pernambucana prosseguiu em seu discurso, questionando a capacidade de Hilton de compreender questões específicas da experiência feminina cisgênero: "Como posso ser representada por uma pessoa que não entende o que eu passo? Que nunca soube o que é saúde da mulher, pra representar o que a mulher pensa? Falar sobre a violência contra a mulher, igualdade no trabalho, falar sobre filhos?"
Outras vozes da oposição se manifestam
A deputada Chris Tonietto, do PL do Rio de Janeiro, endossou as críticas à representatividade de Hilton e expressou preocupação com o futuro da comissão. "Preciso lamentar, porque, na condição de mulher, não me representa", declarou Tonietto. "Se essa comissão for transformada em palanque político eleitoreiro, só pra lacração de rede social, bancada da selfie, não vai ter como essa comissão andar muito bem."
O deputado Éder Mauro, do PL do Pará, que também integra a comissão, disse respeitar Erika Hilton pessoalmente, mas defendeu que o colegiado deveria ser presidido por uma mulher cisgênero. "Estamos vendo o pior índice de feminicídio já visto em toda a história, problemas que a mulher hoje enfrenta, agressões, que são espancadas, que têm salários mais baixos", argumentou. "Como uma mulher pode aceitar que os seus direitos sejam defendidos por quem não é mulher? Quem tem que presidir a comissão tem que ser uma mulher."
Mesmo sem integrar formalmente a comissão, o deputado Paulo Bilynskyj, do PL de São Paulo, utilizou as redes sociais para manifestar sua oposição à escolha de Hilton. Em publicação compartilhando foto do placar do primeiro turno da votação, ele escreveu: "Erika Hilton perdeu a eleição da presidência da comissão das mulheres para os VOTOS EM BRANCO! Tem mais mulheres votando em BRANCO do que nela, esse é o nível de rejeição que a comissão das mulheres demonstrou."
Apoio e resposta da nova presidente
Apesar das críticas, Hilton recebeu congratulações de várias colegas parlamentares, incluindo Sâmia Bonfim, do PSOL de São Paulo, Erika Kokay, do PT do Distrito Federal, e Juliana Cardoso, do PT de São Paulo.
Em sua primeira fala após ser empossada no cargo, a nova presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher afirmou que sua eleição representa uma superação significativa. "A confirmação pelo meu nome representa uma extrapolação da 'barreira do ódio e do preconceito'", declarou Hilton.
A deputada do PSOL-SP defendeu que seu mandato levará em consideração a pluralidade dos partidos representados na comissão e enfatizou que o colegiado deve focar em questões substantivas. "A comissão não deve se ocupar em discutir a 'condição de gênero' de sua presidente, mas sim em abordar 'as problemáticas' que precisam ser enfrentadas no país na garantia de direitos e de combate à violência contra as mulheres", afirmou Hilton, sinalizando sua intenção de conduzir os trabalhos com foco nas pautas consideradas cruciais para todas as mulheres brasileiras.
A eleição de Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher ocorre em um contexto de intensos debates sobre representatividade, identidade de gênero e direitos das mulheres no Brasil, refletindo divisões mais amplas presentes na sociedade e no Congresso Nacional.
