O Misterioso Silêncio de Davi Alcolumbre e a Paralisia do Congresso Nacional
Em um ano eleitoral marcado por turbulências, o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tem mantido um silêncio incomum, evitando aparições públicas, entrevistas e decisões cruciais. Esse comportamento estratégico, combinado com sua preferência por articulações de bastidores, está na raiz de uma paralisia legislativa que tem gerado especulações intensas em Brasília. O resultado é um Parlamento praticamente imobilizado, com projetos importantes parados e 77 vetos presidenciais aguardando análise desde a última sessão, realizada em dezembro.
A Pressão Judicial e o Caso Exemplar da CPMI do INSS
A situação chegou a um ponto crítico quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, deu 48 horas para que Alcolumbre autorizasse a ampliação do prazo de funcionamento da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. O pedido de prorrogação, apresentado há mais de 100 dias, foi simplesmente ignorado pelo senador, que nunca se pronunciou sobre o assunto. Este caso é exemplar e revela as complexidades por trás do pretenso mistério.
A CPMI do INSS foi criada em agosto para investigar um dos maiores escândalos de corrupção das últimas décadas, envolvendo o desvio de cerca de 4 bilhões de reais das aposentadorias de idosos. A organização criminosa, desbaratada pela Polícia Federal, contava com a participação de sindicatos, associações de classe, lobistas e servidores públicos desonestos. As revelações da comissão, no entanto, pararam na antessala do presidente do Congresso.
Ligações Perigosas e Blindagens Políticas
Descobriu-se que o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, mantinha uma teia de relações dentro do próprio Congresso. Além disso, uma reportagem revelou que Paulo Boudens, ex-assessor e braço direito de Alcolumbre, recebeu 3 milhões de reais de uma das empresas da rede do lobista, sem que o motivo do pagamento ou o serviço prestado tenham sido esclarecidos. A CPMI requisitou os registros de visitas do lobista aos gabinetes parlamentares, incluindo o do presidente do Congresso, mas Alcolumbre decidiu manter as informações em sigilo por 100 anos, alegando proteção à privacidade dos parlamentares.
Boudens, que já assumiu responsabilidade por práticas de "rachadinha" no gabinete de Alcolumbre em 2021, é um fantasma que assombra o senador. Paralelamente, descobriu-se que José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão mais velho do presidente Lula, e Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente, tinham ligações com o Careca do INSS. Um acordo entre a bancada governista e aliados de Alcolumbre garantiu blindagem a esses grupos, evitando que fossem instados a se explicar na CPMI.
Racha com o Governo e Investigação da Polícia Federal
A relação entre Alcolumbre e o governo federal foi abalada quando o presidente Lula anunciou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF. O senador se rebelou, alegando um acerto anterior de que a vaga seria ocupada pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), aliado de primeira hora. Sentindo-se traído, Alcolumbre ameaçou boicotar a indicação, esgarçando ainda mais os laços com o governo.
No início de fevereiro, a Polícia Federal realizou uma operação no Amapá Previdência (Amprev), fundo comandado por um ex-tesoureiro da campanha de Alcolumbre e que tem como conselheiro um irmão do senador. A instituição aplicou 400 milhões de reais em papéis podres do Banco Master, contrariando pareceres técnicos. Alcolumbre desconfia que ele é o verdadeiro alvo da investigação. Em novembro do ano passado, dois pedidos de criação de CPI sobre o caso Master chegaram à mesa do senador, mas foram deixados na gaveta, mais uma vez parando no STF.
Estratégia de Sobrevivência e Poderes Excepcionais
A tempestade perfeita que se formou em torno de Alcolumbre levou o parlamentar a adotar uma postura de recuo estratégico. "É instinto de sobrevivência", resume o senador Esperidião Amin (PP-SC). Um aliado do amapaense atribui o mergulho e a distância dos holofotes à estratégia que ele costuma usar: recuar antes de reagir. "Neste momento, ele está na alça de mira, com muita espingarda apontada para a cabeça", disse esse interlocutor.
Preocupado, Alcolumbre telefonou recentemente para Renan Calheiros (MDB-AL), ex-adversário que já chefiou o Congresso, em busca de conselhos. "Estou apanhando muito", desabafou. Renan se comprometeu a ajudar. Apesar da aparente fragilidade, o cargo confere ao senador poderes excepcionais, como decidir sobre pedidos de impeachment contra ministros do STF e marcar sabatinas de autoridades indicadas para cargos em tribunais superiores, autarquias, agências reguladoras e embaixadas.
Moeda de Troca e Tentativas de Reaproximação
Parlamentares próximos afirmam que Alcolumbre está usando a reclusão, o silêncio e os interesses contrariados pela paralisação do Congresso como moeda de troca, tanto com o governo quanto com a oposição. Na terça-feira 24, lideranças do MDB se reuniram com Lula no Palácio do Planalto, com Renan Calheiros presente. A conversa derivou para a crise que atinge o STF e os conflitos com o Legislativo.
Lula foi aconselhado a formalizar a indicação de Jorge Messias e ligar para o chefe do Congresso. Um dos presentes garantiu que Alcolumbre não seria mais obstáculo para a aprovação do advogado-geral da União. O senador já estaria aguardando um telefonema do presidente, mostrando-se disposto a restabelecer as boas relações com o governo. O silêncio, finalmente, foi compreendido como uma estratégia negociadora. Afinal, em ano eleitoral e diante de tantas turbulências, os dois lados só têm a perder com o afastamento.



