O número de pessoas que vivem sozinhas no Brasil mais que dobrou entre 2012 e 2025, saltando de 7,5 milhões para 15,6 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os lares unipessoais já representam 19,7% do total, e o envelhecimento da população é um dos principais fatores para esse crescimento. O contingente acima dos 60 anos compõe 16,6% da população e ocupava 41,2% dos domicílios com um único morador em 2024. O Rio de Janeiro lidera com a maior proporção dessas habitações (23,5%), seguido pela Bahia (22,3%) e pelo Rio Grande do Sul (21,9%).
O que é cohousing?
Diante desse cenário, o conceito de cohousing — coabitação colaborativa ou moradia compartilhada — ganha cada vez mais adeptos no Brasil. Originário da Escandinávia, o modelo busca equilibrar a privacidade de cada morador com a vida comunitária. Cada um tem sua própria casa, mas compartilham espaços e atividades coletivas.
Vila Puri: exemplo no Brasil
No distrito do Brejal, em Petrópolis (RJ), a Vila Puri deve ser inaugurada no fim do segundo semestre. As primeiras 11 casas, de um total de 18, serão entregues em outubro. As unidades têm entre 64 e 90 metros quadrados, além de uma área coletiva com salão para refeições comunitárias, lavanderia, quarto de hóspedes, piscina e academia. A ideia surgiu em 2018 e ganhou força durante a pandemia, segundo a arquiteta Cristiana Carvalho, uma das integrantes da associação responsável pelo projeto.
No modelo de cohousing, os moradores adquirem uma cota que dá direito ao uso de uma casa específica — ou seja, ninguém compra apenas um imóvel, mas uma fatia do empreendimento. A gestão é baseada na sociocracia: as decisões são tomadas por consentimento, não por consenso. “As pessoas discutem, fundamentam suas objeções e o resultado não precisa ser a concordância total de todos. O objetivo é que todos compartilhem a opinião de que o resultado atende ao projeto”, explica Cristiana.
Processo de seleção
Nem todos se adaptam ao cohousing, pois não se trata de um condomínio tradicional. É essencial haver afinidade de ideias. A associação recebe os interessados, fornece informações e inicia uma espécie de “namoro”. Os candidatos tornam-se membros provisórios e têm tempo para avaliar se compartilham os valores da vida comunitária. “A ideia do coletivo norteia todas as ações. O universo de aprendizado é incrível: estudamos energia solar, métodos construtivos sustentáveis, manejo de vegetação. Apesar de a maioria ser composta por mulheres acima dos 60 anos, este é, principalmente, um projeto de futuro”, diz Cristiana.
Outros projetos
Em Campinas (SP), a Vila ConViver, idealizada pela Associação de Docentes da Unicamp por volta de 2013, teve seu projeto arquitetônico aprovado e se prepara para o início das obras. Nos Estados Unidos, o número de norte-americanos acima de 65 anos dividindo a casa com pessoas que não são da família cresceu 88% — de 470 mil para 1 milhão. No Reino Unido, a Older Women’s Co-Housing (Moradia Compartilhada de Mulheres Idosas) reúne integrantes entre 50 e 80 anos que vivem em um edifício administrado por elas mesmas.
O cohousing se apresenta como uma alternativa promissora para enfrentar o envelhecimento populacional e a solidão, promovendo convivência, sustentabilidade e autonomia para a terceira idade.



