Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) revela que quase um terço dos cursos de Medicina no Brasil apresenta desempenho insatisfatório no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). A nota técnica, divulgada nesta segunda-feira, 4, aponta que as piores avaliações se concentram em instituições privadas, inauguradas há poucos anos e com corpo docente menos qualificado.
Expansão dos cursos e desigualdades
Apesar do aumento no número de médicos no Brasil — de 1,3 para cada 1.000 habitantes em 2006 para 2,6 em 2026 —, o estudo aponta duas más notícias. A primeira é a persistência das desigualdades: a escassez de médicos em áreas periféricas contrasta com a enorme oferta nas grandes capitais. A segunda é a qualidade do ensino: cerca de um terço dos concluintes não atinge o padrão mínimo de proficiência no Enamed.
O crescimento expressivo de cursos a partir de 2013 foi impulsionado pela Lei dos Mais Médicos, que priorizava regiões com menor oferta de profissionais. Em 2018, o Ministério da Educação (MEC) suspendeu a abertura de novos cursos por cinco anos, mas novas faculdades foram abertas no período, nem sempre seguindo os critérios estabelecidos, segundo o Ieps.
Desempenho por tipo de instituição
O Enamed classifica os cursos em Conceitos de 1 a 5, conforme o percentual de alunos proficientes: Conceito 1 (menos de 40%), 2 (40-54%), 3 (55-69%), 4 (70-84%) e 5 (acima de 85%). As instituições públicas federais concentram maior proporção nos Conceitos 4 e 5, indicando desempenho superior. Já as privadas com fins lucrativos têm maior participação nos Conceitos 1 e 2, sugerindo resultados insatisfatórios. As privadas sem fins lucrativos ocupam posição intermediária.
Cursos mais recentes têm pior desempenho
Ao analisar o período de abertura dos cursos, o estudo mostra que aqueles fundados até 2012 concentram maior proporção de Conceitos 4 e 5. Os cursos abertos entre 2013 e 2017 apresentam resultados intermediários, enquanto os inaugurados a partir de 2018 concentram a maior parcela de Conceitos 1 e 2. O Ieps conclui que o tempo de experiência institucional está associado ao desempenho.
Corpo docente e qualidade
Cursos com Conceitos 4 e 5 têm, em mediana, maior número de docentes e maior razão de docentes por aluno. Além disso, concentram maior proporção de doutores e mais docentes em regime de dedicação integral. Há correlação positiva entre qualificação do corpo docente e desempenho no Enamed, segundo o relatório.
Monitoramento e punições
A nota técnica do Ieps conclui que a expansão da formação médica requer monitoramento e avaliação da qualidade do treinamento e da distribuição dos médicos. O Enamed, que começou a valer em 2025, teve seus primeiros resultados divulgados em janeiro de 2026. Dos 351 cursos avaliados, 107 tiveram conceitos insatisfatórios (1 e 2), a maioria de instituições públicas municipais ou privadas sem fins lucrativos. Esses cursos serão punidos com restrição ou suspensão de vagas.



