Dia da Mulher: Teresinenses destacam luta pelo sustento da família e enfrentamento à violência
Neste domingo (8), celebra-se o Dia Internacional da Mulher, data oficialmente reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1975. Em Teresina, capital do Piauí, o g1 ouviu mulheres que trabalham no Shopping da Cidade, traçando um panorama das trajetórias marcadas por lutas, conquistas e desafios persistentes. Ao longo desses 51 anos, as mulheres avançaram em diversos direitos, mas a realidade de muitas ainda é atravessada pela pesada responsabilidade de sustentar a própria família, além de enfrentar o medo constante da violência.
Histórias de resistência e trabalho
Doralice Moraes, de 47 anos, é um exemplo dessa realidade. Costureira há décadas, ela começou a trabalhar aos 17 anos. Mãe solteira, sustentou sozinha a filha, que hoje cursa biomedicina, através de trabalhos manuais. "Eu criei ela sozinha, em vários trabalhos, em fábricas, vendendo roupa e depois trouxe uma máquina para cá. Estou aqui há 10 anos", contou. Doralice expressa o desejo de que a filha não enfrente as mesmas dificuldades e pede mais atenção dos governantes. "Queria que os governadores olhassem mais para as mães que batalham só, até para aquelas que têm esposo, mas são os pilares da casa. Ainda tem muitas barreiras", afirmou.
Jéssica da Costa Silva, 32 anos, divide seu tempo entre o trabalho diurno como vendedora e a noite como cantora, buscando aumentar a renda para sustentar quatro filhos, sendo o mais novo autista. Ela começou a trabalhar aos 15 anos e enfrentou enormes dificuldades para conciliar trabalho e maternidade. "Meus filhos nasceram um perto do outro. Fiz cesariana e voltei a trabalhar ainda no resguardo. Tive dificuldade para encontrar alguém que cuidasse das crianças. Sou mãe, trabalho e me sustento", relatou. Apesar dos desafios, Jéssica vê a maternidade como uma transformação positiva: "Ser mãe de quatro crianças não é fácil de organizar, mas é maravilhoso".
Raquel Rios Ferreira, 51 anos, quebra estereótipos como a única mulher na equipe de seguranças do Shopping da Cidade, onde atua há 14 anos. "As pessoas acham que a gente não é capaz, que somos frágeis, mas ao mesmo tempo temos uma força muito grande. Eu me considero uma mulher muito forte e de coragem", declarou, destacando a resistência necessária em um ambiente predominantemente masculino.
Medo e violência: desafios diários
O medo é um incômodo constante na rotina de muitas mulheres. Em 2025, o Piauí registrou pelo menos 2.045 casos de violência sexual contra mulheres, incluindo 664 importunações sexuais, 341 estupros e 1.040 estupros de vulnerável, o equivalente a dois abusos por dia, segundo a Secretaria de Segurança do Estado.
Maria Luana Marques, 23 anos, vendedora em uma loja de roupas, relatou que a maior dificuldade é lidar com o assédio diário. "É o medo de sair com certas roupas na rua porque alguns homens não conseguem respeitar", disse. Ela ainda expressa receio no ambiente de trabalho: "Tem o medo de ser simpática e confundirem o profissionalismo com confiança".
Além da violência sexual, o número alarmante de feminicídios preocupa. Dados da SSP-PI apontam que 37 mulheres, entre 15 e 77 anos, foram mortas no estado. A empresária Isabel Maria Riveira enfatizou a importância do apoio entre mulheres no enfrentamento à violência. "Me entristece ver que estamos nos perdendo com o feminicídio e que há mulheres que julgam as outras. Mulheres perdem a vida, são maltratadas e colocadas como culpadas. Nós não somos culpadas e não podemos deixar isso acontecer. Temos que segurar a mão umas das outras e nos defender", declarou. Ela também destacou a necessidade de leis mais rígidas e respostas mais efetivas para crimes contra mulheres: "Desejo que venham leis que nos defendam e que os crimes sejam de fato julgados. Nós precisamos parar de perder a vida".
Força e esperança no futuro
Mesmo com os desafios constantes, a força e a fé no amanhã motivam as mulheres a continuarem enfrentando o assédio e o machismo. "O que eu sempre falo para todas as mulheres é: não tenham medo, somos capazes de fazer de igual para igual. Não permitam que as pessoas façam vocês acreditarem que não são capazes. Nós somos capazes de estar nos lugares que queremos. Não somos só mães; somos irmãs e amigas", disse uma das entrevistadas, reforçando a mensagem de união e empoderamento.
Leis piauienses de proteção às mulheres
O Piauí conta com legislações específicas voltadas para a proteção das mulheres, incluindo:
- Aviso prévio obrigatório à vítima: Sancionada em setembro de 2025, a lei nº 8.804/2025 garante que vítimas de violência doméstica e familiar recebam um aviso, com até 72 horas de antecedência, sempre que houver uma decisão judicial que relaxe, revogue ou substitua medidas protetivas de urgência aplicadas contra o agressor.
- Cadastro Estadual de Condenados por Violência Contra a Mulher: A lei nº 8.824/2025 determina que o estado do Piauí divulgue o nome, foto e dados processuais de pessoas condenadas por violência contra mulher. O cadastro ficará disponível no site da Secretaria de Segurança Pública do Piauí e poderá ser acessado por qualquer pessoa.
- Dia Estadual de Combate à Violência Doméstica: A Lei nº 6.383/2013 instituiu o dia 25 de novembro como o dia oficial de combate à violência doméstica no Piauí.
- Atendimento para Mulher Vítima de Violência: A Lei nº 6.421/2013 estabelece um regime especial para o atendimento de mulheres vítimas de violência no serviço público de saúde, garantindo acesso gratuito a cirurgias plásticas reparadoras e acompanhamento psicoterápico, desde que comprovada a agressão e o dano à integridade física da vítima.
Essas leis representam avanços, mas as histórias das mulheres de Teresina mostram que a luta por igualdade, segurança e dignidade continua sendo uma jornada diária e coletiva.
