Justiça suspende licença de mineradora em MG após ação de comunidades quilombolas
Justiça suspende licença de mineradora após ação quilombola

Justiça suspende licença de mineradora em Minas Gerais após ação de comunidades quilombolas

A Justiça Federal determinou a suspensão imediata da licença de operação da empresa Fleurs Global Mineração Ltda. em Minas Gerais, atendendo a um recurso apresentado pela Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais N'Golo. A decisão foi proferida pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6) e assinada pelo juiz relator convocado Gláucio Maciel.

Falta de consulta prévia às comunidades tradicionais

O caso centraliza-se na comunidade quilombola Manzo Ngunzo Kaiango, localizada a aproximadamente 5,9 quilômetros da área do empreendimento minerário. Segundo a federação quilombola, não houve qualquer processo de consulta prévia, livre e informada à comunidade antes da concessão da licença ambiental pelo governo mineiro.

"A consulta prévia é obrigatória em casos que possam afetar povos e comunidades tradicionais", afirmou a entidade em seu recurso, baseando-se na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Decisão judicial com medidas rigorosas

Na decisão, o magistrado não apenas suspendeu a licença de operação corretiva concedida à mineradora, como também determinou que o estado de Minas Gerais não analise novos pedidos de licenciamento relacionados ao mesmo projeto até que todas as exigências legais sejam integralmente cumpridas.

O juiz destacou em sua fundamentação que normas e decisões judiciais já estabelecem claramente que comunidades quilombolas devem ser consultadas quando empreendimentos potencialmente impactantes estiverem a menos de 8 quilômetros de distância.

Principais argumentos que embasaram a decisão

Entre os pontos considerados determinantes pela Justiça Federal estão:

  • Distância da comunidade: a comunidade quilombola está a cerca de 5,9 km do empreendimento, dentro do raio de 8 km considerado como área de possível impacto direto.
  • Falta de consulta prévia: ausência completa do processo de consulta livre, prévia e informada à comunidade, conforme previsto na Convenção 169 da OIT.
  • Ausência de estudos específicos: o processo de licenciamento ambiental não incluiu qualquer estudo sobre possíveis impactos na comunidade quilombola local.
  • Princípio da precaução ambiental: diante da possibilidade concreta de danos ambientais e sociais, a Justiça entendeu que o poder público deveria exigir estudos aprofundados antes de conceder a licença.
  • Entendimento do STF: decisão do Supremo Tribunal Federal já estabeleceu que o direito de consulta às comunidades tradicionais independe da conclusão do processo de regularização de suas terras.

Contexto de investigações e suspeitas

A decisão judicial também menciona investigações em curso da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União sobre um suposto esquema de corrupção no setor de mineração em Minas Gerais. Segundo o processo, a empresa Fleurs Global Mineração Ltda. teria sido mencionada nessas investigações, o que reforçaria a necessidade de analisar com extremo cuidado a legalidade da licença concedida.

"As suspeitas reforçam a necessidade de analisar com mais cuidado a legalidade da licença concedida", destacou o magistrado em sua decisão.

Consequências imediatas e próximos passos

Com a medida judicial, a licença da mineradora permanece suspensa até que o caso seja analisado de forma mais aprofundada pela Justiça. O governo de Minas Gerais, a Fundação Cultural Palmares, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a própria empresa Fleurs Global Mineração Ltda. foram formalmente intimados e poderão apresentar suas defesas no processo.

A situação coloca em evidência os conflitos entre atividades econômicas de grande porte e os direitos de comunidades tradicionais, especialmente em um estado com forte tradição mineradora como Minas Gerais. A decisão estabelece um precedente importante sobre a obrigatoriedade da consulta prévia a comunidades quilombolas em processos de licenciamento ambiental.

O caso continua em tramitação na Justiça Federal, com expectativa de novas manifestações das partes envolvidas nas próximas semanas. A suspensão da licença representa um significativo revés para a empresa mineradora, que terá que aguardar a definição judicial antes de retomar quaisquer atividades no local.