ONG denuncia desaparecimento forçado de salvadorenhos deportados dos EUA sob governo Bukele
Desaparecimento forçado de deportados dos EUA em El Salvador

ONG internacional denuncia desaparecimento forçado de salvadorenhos deportados dos Estados Unidos

A organização Human Rights Watch (HRW) divulgou nesta segunda-feira, 16 de março de 2026, um relatório contundente que acusa o governo de El Salvador de praticar desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias contra cidadãos deportados dos Estados Unidos. Segundo a entidade internacional de direitos humanos, salvadorenhos expulsos do território americano estão sendo presos imediatamente ao chegarem ao país e mantidos incomunicáveis, sem que autoridades revelem seu paradeiro ou apresentem acusações formais.

Casos documentados de violações sistemáticas

O documento da HRW detalha pelo menos onze casos específicos de salvadorenhos deportados desde o início de 2025 que teriam sido detidos assim que retornaram a El Salvador. Familiares e advogados entrevistados pela organização afirmam que não receberam qualquer informação sobre onde essas pessoas estão presas ou quais seriam os motivos legais para as detenções.

"Independentemente do histórico criminal dessas pessoas, elas têm direito ao devido processo legal e a serem levadas diante de um juiz", declarou Juanita Goebertus, diretora para as Américas da HRW. "Deportação não pode significar desaparecimento forçado."

Contexto das deportações em massa

Os casos investigados fazem parte de um fluxo muito maior de deportações. Desde o início de 2025, durante o cerco a imigrantes do segundo governo de Donald Trump, mais de 9 mil salvadorenhos foram enviados de volta ao seu país de origem. A Casa Branca alegou que parte dos deportados teria ligação com a MS-13, uma das principais gangues do país, mas a HRW contesta essa afirmação.

Dados analisados pela organização indicam que apenas 10,5% dos deportados tinham condenação nos Estados Unidos por crimes violentos ou potencialmente violentos. Para a maioria, não foram apresentadas provas que sustentassem acusações de envolvimento com atividades criminosas.

Destino nas megaprisões de Bukele

Parte dos deportados foi levada para o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), a megapenitenciária que se tornou símbolo da política de segurança de linha dura do presidente Nayib Bukele. Este complexo carcerário é considerado a joia da coroa da máquina de repressão e combate às gangues implementada pelo governo salvadorenho.

Familiares relataram à HRW que tentaram localizar os parentes através do sistema online de detentos do ICE (polícia de imigração dos Estados Unidos), mas não encontraram informações. Somente posteriormente, autoridades americanas confirmaram que os homens haviam sido deportados para El Salvador.

Busca por informações através de organismos internacionais

Em alguns casos, parentes só descobriram o possível destino dos detidos após recorrer à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), com sede em Washington. Outros entraram com pedidos de habeas corpus na Suprema Corte salvadorenha, mas um desses pedidos foi rejeitado por suposta falta de precisão nas informações apresentadas, enquanto os demais ainda aguardam decisão.

Em respostas enviadas à CIDH, o governo salvadorenho informou que ao menos cinco dos deportados estão detidos no país — quatro na prisão de Santa Ana e um no CECOT — embora não tenha esclarecido a base legal para essas detenções. Nos demais casos documentados pela HRW, os familiares afirmam não ter qualquer informação sobre o paradeiro de seus parentes.

Caso emblemático de erro administrativo

Um dos episódios mais emblemáticos citados no relatório envolve Kilmar Ábrego García, deportado em março de 2025 devido ao que o próprio governo americano classificou posteriormente como um "erro administrativo". Ele foi devolvido aos Estados Unidos em junho por ordem de um juiz federal, mas segundo seus advogados, sofreu abusos físicos durante o período em que esteve detido em prisões salvadorenhas.

Estado de emergência permanente

El Salvador vive sob estado de emergência desde março de 2022, medida adotada pelo governo Bukele para combater gangues e que permanece em vigor. Nesse período, foram suspensas garantias constitucionais fundamentais como:

  • O direito de ser informado sobre os motivos da prisão
  • O acesso imediato a advogado
  • A obrigação de apresentar detidos a um juiz em até 72 horas

Segundo a HRW, essas circunstâncias facilitam detenções prolongadas sem comunicação com familiares ou representantes legais, configurando violação sistemática do devido processo legal e criando condições ideais para desaparecimentos forçados.