Mulheres em situação de rua em Belém enfrentam desafios de higiene menstrual
Desafios de higiene menstrual de mulheres em situação de rua em Belém

Mulheres em situação de rua enfrentam desafios de higiene menstrual em Belém

Acordar sem saber se haverá comida, onde dormir ou mesmo se será possível tomar um banho. Essa é a rotina de Mariane, que há sete anos vive nas ruas de Belém, no Pará. Com 34 anos, ela integra as mais de duas mil pessoas em situação de rua na capital paraense, conforme dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas para Pessoas em Situação de Rua, baseados no Cadastro Único.

Improvisação e falta de acesso a itens básicos

Além da fome e da falta de abrigo, Mariane enfrenta a dificuldade de manter a higiene básica, especialmente durante o período menstrual. Sem acesso regular a absorventes, banheiros ou água encanada, ela e outras mulheres recorrem a soluções improvisadas.

"A gente improvisa absorventes com um paninho, um pedaço de camiseta. O banho a gente tenta nas fontes de água que têm pela cidade, mas, quando não dá, vai no rio mesmo", relata Mariane.

Iniciativa busca minimizar a falta de acesso à higiene

Diante dessa realidade, o projeto Mulheres Por Elas (MPE), uma organização da sociedade civil criada em 2019, atua para atender pessoas que menstruam e estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Com cerca de 28 voluntários, o grupo distribui kits de higiene pessoal que incluem absorventes, calcinhas, sabonete, shampoo, escova e pasta de dente, papel higiênico, desodorante e preservativos.

Karolini Pereira, voluntária há três anos no projeto, explica que a iniciativa surgiu da percepção de que a falta de higiene pessoal impacta a dignidade, a saúde e o tratamento social dessas pessoas.

"Tomar um banho digno, escovar os dentes, cuidar do próprio corpo é o mínimo das necessidades básicas de uma pessoa, principalmente no período menstrual, onde ela precisa ter um cuidado a mais", afirma Karolini.

Preconceito e exclusão no acesso a serviços

Para Mariane, o acesso a itens de higiene faz toda a diferença, pois a falta de limpeza pessoal contribui para situações de constrangimento e exclusão. Ela relata dificuldades ao tentar utilizar transporte público, enfrentando rejeição de motoristas e passageiros.

"Tem motorista que nem para. Alguns deixam a gente subir pela porta de trás, mas aí as pessoas de dentro começam a reclamar, tampar o nariz, virar o rosto", conta.

Mesmo conhecendo programas públicos que garantem distribuição gratuita de absorventes, Mariane afirma que o preconceito ainda é uma barreira em farmácias e unidades de saúde.

"Chega no lugar e eles não param pra ouvir a gente. Há lugares que nem nos deixam entrar. Parece que é até crime pedir ajuda", desabafa.

Abordagem inclusiva e ampliação do atendimento

O projeto Mulheres Por Elas adota o termo "pessoas que menstruam" para incluir mulheres cisgênero, homens trans e pessoas não binárias, ampliando o acesso a direitos sem exclusão. As demandas variam conforme o local: nas ruas, a principal necessidade é higiene; em comunidades periféricas, surgem outras carências socioeconômicas.

Além dos kits, o grupo promove oficinas e acesso à informação sobre higiene pessoal, amamentação, uso de preservativos e ciclo menstrual, fortalecendo a autonomia e o conhecimento dos atendidos.

Desafios na manutenção do projeto

Karolini destaca que muitos doadores ainda associam itens de higiene à vaidade, priorizando doações de comida ou agasalhos. No entanto, o projeto se mantém com a solidariedade de voluntários e doadores, embora enfrente desafios financeiros para custear deslocamentos, alimentos e outras logísticas.

"Passamos o mês inteiro tentando arrecadar recursos para conseguir fazer as ações. Quando não há doações suficientes, muitas vezes precisamos tirar do próprio bolso", relata a voluntária.

Apesar das dificuldades, o agradecimento recebido durante as ações motiva a continuidade do trabalho.

"Muitas mulheres dizem que estavam esperando por aquilo havia dias, e aí elas agradecem, ficam felizes com o que recebem. Sabemos que a rotina delas é difícil e, mesmo assim, conseguimos arrancar um sorriso. Isso é o que faz tudo valer a pena", conclui Karolini.