Trump e Lula: Como presidentes desafiam autonomia de Bancos Centrais
Trump e Lula desafiam autonomia de Bancos Centrais

Um padrão preocupante de interferência política em instituições monetárias independentes ganhou destaque internacional, com ações paralelas dos presidentes Donald Trump, nos Estados Unidos, e Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil. Ambos travaram campanhas públicas para depor os chefes de seus respectivos bancos centrais, desafiando um pilar fundamental da governança econômica moderna: a autonomia da autoridade monetária.

Ofensivas pessoais e estratégias de pressão

As semelhanças entre os dois casos são marcantes. Nos Estados Unidos, Donald Trump iniciou uma cruzada para remover Jerome Powell do comando do Federal Reserve (FED). Apesar de ter nomeado Powell para o cargo em 2018, Trump passou a atacá-lo publicamente, especialmente após divergências sobre a política de juros. A estratégia escalou para uma investigação criminal, ordenada pela Casa Branca, sobre os custos da reforma da sede do FED.

Do outro lado, no Brasil, o presidente Lula conduziu uma campanha de dois anos (2023-2024) contra Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central. Lula utilizou um tom publicamente mais polido, referindo-se a Campos Neto como "esse rapaz" ou "esse cidadão", mas não poupou insinuações sobre sua lealdade, questionando a quem ele realmente servia.

Um teste aos limites do poder presidencial

Analistas apontam que, por trás das ofensivas pessoais, está uma visão comum entre os dois líderes. Tanto Trump quanto Lula parecem entender que o mandato legitimado pelo voto deve subordinar toda a administração pública, incluindo a política monetária, às prioridades do chefe do governo. Esta postura colide frontalmente com o conceito de independência dos bancos centrais, visto como um antídoto contra a manipulação política da moeda e um guardião da estabilidade econômica de longo prazo.

O discurso de Trump no Clube Econômico de Detroit, em 13 de janeiro de 2026, exemplificou a tática. Ele se referiu abertamente ao presidente do FED como "idiota" e "imbecil", focando suas críticas nas decisões sobre taxa de juros. O estilo pode diferir, mas o objetivo de submeter a autoridade monetária é compartilhado.

Resultados e custos políticos da interferência

No caso brasileiro, a investida de Lula não obteve sucesso. A sucessão no Banco Central ocorreu de forma natural há um ano, e a política monetária manteve seu curso técnico. O resultado foi a manutenção de uma das taxas de juros mais altas do planeta, justamente para conter o aumento do déficit nas contas públicas do próprio governo Lula. O presidente testou um limite de poder e, conforme análise, perdeu.

Agora, Trump tenta um caminho diferente, com o processo criminal contra Powell, cujo mandato só termina em maio. Especialistas acreditam que essa estratégia também deve fracassar. Governar com confrontos constantes contra instituições independentes tem um alto custo político e econômico, minando a credibilidade do país e criando incerteza nos mercados.

O fenômeno não se limita à economia. Personalismos políticos frequentemente levam a conflitos com outros poderes. O artigo cita o exemplo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que passou a xingar publicamente ministros do Supremo Tribunal Federal após decisões contrárias aos seus decretos durante a pandemia.

A lição que fica é clara: a tentativa de subjugar bancos centrais ao poder executivo, seja por ataques verbais ou manobras jurídicas, representa um risco significativo à estabilidade institucional e econômica, com consequências que podem perdurar muito além de um único mandato presidencial.