A atualização da NR-1 (Norma Regulatória Nº1), que estabelece diretrizes gerais sobre Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil, entra em vigor nesta terça-feira, 26. As novas regras tornam obrigatório que empresas incluam em seus Programas de Gerenciamento de Riscos fatores psicossociais como estresse, sobrecarga e assédio. Contudo, a mudança efetiva só ocorre quando o tema da saúde mental se transforma em cultura no ambiente de trabalho, afirmam especialistas.
Mariana Achutti, CEO da empresa de educação corporativa Newnew, defende que a saúde mental não pode ser apenas uma pauta confinada ao RH das companhias, mas sim atingir as lideranças. Segundo dados da Gallup, o gestor direto responde por até 70% da variação no engajamento de uma equipe, o que configura não apenas um dado de bem-estar, mas principalmente de performance. “Uma liderança que não sabe ter conversas reais sobre carga, sentidos e dificuldades drena resultados e produz adoecimento simultaneamente”, diz.
A executiva reforça que cultura não é o que a empresa declara. Por isso, para que o bem-estar vire cultura corporativa, ele precisa estar embutido nas decisões de negócio, nos critérios de promoção e na forma como os líderes são desenvolvidos e avaliados. Para ela, a virada acontece quando a companhia recebe indicadores de saúde organizacional com a mesma frequência e seriedade com que recebe indicadores financeiros.
Medidas concretas para um ambiente saudável
Algumas medidas citadas que fazem a diferença para criar um ambiente de trabalho saudável incluem:
- Desenvolver líderes que consigam ter conversas reais e que tenham repertório para lidar com o humano, a partir de prática contínua e segurança psicológica para errar e aprender;
- Criar sistemas, e não momentos pontuais: construir ambientes onde as pessoas tenham clareza, relações saudáveis e condições reais de trabalhar e viver melhor, incorporando pausas, limites e cultura de descanso no DNA operacional;
- Trabalhar a saúde cognitiva dos funcionários: criar espaços de deliberação sem inteligência artificial, cuja dependência causa perda de habilidades em áreas relacionadas à memória, atenção e pensamento crítico.
Onde as empresas mais erram?
“O erro mais comum e mais caro é tratar o sintoma como causa”, explica Achutti. Ela observa que muitas empresas percebem que as pessoas estão esgotadas e, como tentativa de alívio, contratam plataformas de bem-estar, em vez de analisar e retratar comportamentos como liderança tóxica, metas impossíveis, ausência de autonomia e cultura do medo.
Outro erro citado é a inconsistência entre discurso e prática. Segundo ela, “existem instituições que declaram valorizar a saúde mental, mas glorificam quem trabalha 14 horas por dia, punem quem tira férias e promovem líderes que assediam”. Esse duplo vínculo produz um duplo dano: o colaborador adoece e ainda se culpa por adoecer, porque o ambiente diz uma coisa e faz outra.
Um último fator crescente é a confusão entre agilidade e sobrecarga. Com a aceleração da IA, muitas empresas estão exigindo mais entrega com menos pessoas, usando a tecnologia como justificativa para aumentar a carga. “A IA veio para amplificar a capacidade humana, não para substituir o tempo que o ser humano precisa para pensar, criar e recuperar”, afirma a especialista.



