Crise no Banco de Brasília se aprofunda com desconfiança do mercado e risco de intervenção
A situação do Banco de Brasília (BRB) ganhou novos contornos preocupantes após o atraso na divulgação do balanço referente ao ano de 2025. Esse fato aumentou significativamente a desconfiança do mercado financeiro em relação a um possível rombo bilionário e elevou o risco de uma intervenção direta por parte das autoridades reguladoras. O problema estaria ligado à aquisição de aproximadamente R$ 12 bilhões em carteiras do Banco Master, que continham ativos considerados 'podres', ou seja, de qualidade extremamente baixa e sem lastro adequado que garantisse seu valor real.
Plano robusto de capitalização busca evitar desfecho catastrófico
Para evitar a liquidação pelo Banco Central, que seria um cenário extremamente negativo, o BRB estruturou um plano de capitalização considerado robusto pelos especialistas. Entre as principais medidas estão empréstimos no valor de R$ 4 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e outros R$ 4 bilhões obtidos através de um sindicato formado por diversos bancos. O pacote de socorro inclui ainda a criação de um fundo imobiliário utilizando terrenos públicos do Distrito Federal, além da venda de participações em subsidiárias e de ativos considerados saudáveis e com valor de mercado.
Cálculo financeiro demonstra vantagem do socorro sobre liquidação
Os números financeiros pesam decididamente a favor da opção pelo socorro coordenado. Para o FGC, conceder o empréstimo ao BRB seria "muito mais barato" do que enfrentar uma liquidação completa da instituição. Em um cenário de liquidação extrajudicial, o fundo teria que arcar com cerca de R$ 52 bilhões para cobrir correntistas e poupadores do banco, o que ampliaria drasticamente o impacto negativo sobre todo o sistema financeiro nacional e exigiria uma mobilização ainda maior de recursos públicos e privados.
Analista destaca ativos relevantes e risco sistêmico
O analista de investimentos Josias Bento, da GT Capital, ressalta que o BRB ainda possui ativos relevantes e estratégicos, como as folhas de pagamento de servidores públicos, que garantem um fluxo constante e recorrente de receitas. Esse conjunto de ativos reforça o argumento de que a instituição tem condições reais de recuperação, desde que haja um apoio coordenado do mercado e das entidades de garantia. Bento alerta ainda que uma liquidação de uma instituição do porte do BRB "poderia causar um estrago muito grande no sistema financeiro nacional como um todo", tornando a alternativa de socorro a saída mais viável e menos arriscada para manter a estabilidade.
Economista defende privatização após saneamento
Já o economista Alex Agostini adota um tom mais crítico em relação ao futuro do banco. Para ele, após o saneamento das contas através do plano de capitalização, o BRB deveria ser privatizado. Agostini afirma que bancos públicos acabam funcionando como um "canal que se tem para a corrupção" e avalia que o socorro do FGC eleva o custo de capital de todo o sistema financeiro, já que outras instituições precisam reforçar os aportes ao fundo garantidor. Na visão dele, a crise atual reacende o debate fundamental sobre o papel dessas instituições públicas e os riscos fiscais envolvidos em suas operações.
Esclarecimentos sobre supervisão são considerados necessários
Agostini também defende esclarecimentos do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na CPI do crime organizado. Segundo o economista, o depoimento ajudaria a esclarecer a relação entre o Banco Master e o BRB e avaliar eventuais fragilidades nos mecanismos de supervisão bancária. Ele afirma que Campos Neto tem "histórico ilibado" e que sua participação, assim como a do atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, pode contribuir decisivamente para aperfeiçoar os controles e evitar novas crises no sistema financeiro brasileiro.



