Saks Global pede proteção contra falência após acordo bilionário
Saks Global entra com pedido de proteção contra falência

O cenário do varejo de luxo norte-americano foi abalado na noite desta terça-feira com um movimento drástico. O conglomerado Saks Global, que reúne marcas icônicas como Saks Fifth Avenue e Neiman Marcus, entrou com um pedido de proteção contra falência, marcando um dos maiores colapsos do setor desde a pandemia.

Uma estratégia que sobrecarregou as finanças

A medida judicial, protocolada em um tribunal do Texas, gera incertezas sobre o futuro do setor, mesmo com a empresa garantindo que suas lojas permanecerão abertas por ora. O pedido chega pouco mais de um ano após a conclusão de um acordo ambicioso que uniu sob o mesmo guarda-chuva as redes Saks Fifth Avenue, Bergdorf Goodman e Neiman Marcus.

O arquiteto dessa fusão, Richard Baker, deixa o cargo de CEO. Em seu lugar, assume Geoffroy van Raemdonck, ex-líder da Neiman Marcus. A empresa também promoveu outros ex-executivos da Neiman para posições-chave, indicando uma mudança na direção estratégica.

Nos documentos apresentados à justiça, a Saks Global estimou que seu passivo e seus ativos estão na faixa colossal de US$ 1 bilhão a US$ 10 bilhões. O objetivo do processo é claro: ganhar fôlego para negociar uma reestruturação da dívida com seus credores ou, em última instância, encontrar um novo proprietário. Caso contrário, o fechamento das operações se torna uma possibilidade real.

O pacote de financiamento de emergência

Para navegar por este período turbulento, a Saks Global anunciou na manhã de quarta-feira a finalização de um pacote de financiamento de US$ 1,75 bilhão. Esse acordo prevê uma injeção imediata de US$ 1 bilhão por meio de um empréstimo especial (debtor-in-possession), liderado por fundos como Pentwater Capital e Bracebridge Capital.

Além disso, a empresa terá acesso a mais US$ 240 milhões em crédito lastreado em ativos e outros US$ 500 milhões assim que sair com sucesso da proteção judicial, o que é esperado ainda em 2025. A companhia também solicitou ao tribunal um prazo extra de 45 dias, até março de 2026, para entregar suas demonstrações financeiras.

A lista de credores revela a dimensão do problema no ecossistema do luxo. Entre os maiores credores não garantidos estão:

  • Chanel: US$ 136 milhões
  • Kering (dona da Gucci): US$ 60 milhões
  • LVMH: US$ 26 milhões

No total, a Saks Global calcula ter entre 10.001 e 25.000 credores.

As raízes da crise no varejo de luxo

A trajetória recente da Saks Global é um caso clássico de expansão agressiva seguida por um ambiente desfavorável. O acordo de US$ 2,7 bilhões para comprar a Neiman Marcus em 2024, estruturado com pesado endividamento e capital de investidores como Amazon e Salesforce, criou um gigante, mas também uma dívida insustentável.

Esse fardo financeiro chegou em um momento de desaceleração nas vendas globais de artigos de luxo. A empresa começou a ter dificuldades para pagar fornecedores no ano passado, o que levou ao racionamento de estoques nas lojas. Prateleiras vazias afastaram a clientela para concorrentes como a Bloomingdale's, aumentando a pressão.

"Os ricos ainda estão comprando", comentou o analista David Swartz, da Morningstar, no mês passado, "só que não tanto na Saks". A falta de liquidez forçou a venda de ativos, como a loja da Neiman Marcus em Beverly Hills, e a busca por um sócio para a Bergdorf Goodman.

A situação ficou crítica quando, em 30 de dezembro, a empresa não conseguiu honrar o pagamento de juros superiores a US$ 100 milhões para detentores de títulos. Agora, a Saks Global, uma instituição do varejo norte-americano fundada em 1867 e frequentada por estrelas de Hollywood, luta nos tribunais para preservar seu legado e seu futuro.