Piracicaba registra fechamento de 25 agências bancárias em uma década
Um levantamento realizado com dados do Banco Central do Brasil revela que Piracicaba, no interior de São Paulo, enfrentou uma redução drástica em sua rede bancária física nos últimos dez anos. Entre março de 2016 e março de 2026, o município viu o número de agências bancárias cair de 60 para apenas 35 unidades, representando uma diminuição de 25 estabelecimentos, o equivalente a impressionantes 42% da rede presencial.
Redução também atinge postos de atendimento
Além das agências completas, que contam com gerente geral, tesouraria e todos os serviços bancários, os Postos de Atendimento (PAs) também sofreram redução significativa. No mesmo período, esses pontos focados em atendimento comercial ou eletrônico diminuíram de 118 para 73 unidades, uma queda de 38,14% na rede física. É importante destacar que, com os fechamentos, um mesmo ponto físico pode abrigar múltiplas agências, estratégia que reduz custos operacionais mas também concentra o atendimento e aumenta a demanda nas unidades remanescentes.
Sindicato classifica movimento como "elevado e preocupante"
Para José Antonio Fernandes Paiva, diretor do Sindicato dos Bancários de Piracicaba e Região (SindBan), essa transformação estrutural do setor financeiro, impulsionada pela digitalização dos serviços, representa um cenário alarmante. Paiva defende que a tecnologia poderia ser implementada de forma complementar, sem a redução "tão intensa" da estrutura física, já que os impactos são diretos nos empregos, no atendimento à população e na presença dos bancos nos municípios.
"Muitos clientes, idosos, pessoas com menos poder aquisitivo e aqueles com menor familiaridade com tecnologia enfrentam dificuldades para acessar serviços digitais", alerta o dirigente sindical. "Com o fechamento das agências, essas pessoas ficam com menos opções de atendimento, enfrentam filas maiores nas unidades remanescentes e, em alguns casos, precisam se deslocar para outras cidades. Isso gera exclusão financeira e perda de qualidade no atendimento."
Impactos práticos na vida dos clientes
Os efeitos dessa transformação já são sentidos no cotidiano dos cidadãos piracicabanos. Agnaldo Lourenço, de 58 anos, que utiliza canais digitais bancários, relatou precisar recorrer ao atendimento presencial após tentativas frustradas de resolver problemas através do aplicativo e da central de atendimento. "Eu estou tentando resolver problemas no meu cartão. Vi pelo aplicativo, pela Central de Atendimento e eles mandaram eu vir para cá [...] É o tipo de problema que só dá para resolver em agência", explicou o cliente.
Maria das Dores Pereira, de 70 anos, representa outro perfil afetado: "Não uso nada [de aplicativo]. Venho todo mês aqui na agência e não tenho problemas com o banco". Sua dependência do atendimento presencial ilustra os desafios enfrentados por parcela significativa da população.
Sobrecarga de trabalho e visões divergentes
Do ponto de vista trabalhista, o SindBan relata uma combinação preocupante de efeitos:
- Transferências de funcionários entre unidades
- Desligamentos frequentes através de programas de demissão voluntária
- Aumento da sobrecarga para os trabalhadores remanescentes
- Acúmulo de funções e metas mais agressivas
Em contrapartida, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirma que a redução do atendimento presencial acompanha a queda proporcional da demanda nas agências. Segundo a entidade, não há sobrecarga de trabalho, mas sim uma adaptação às novas necessidades do setor, com a tecnologia facilitando as atividades dos funcionários.
Digitalização como justificativa e debate sobre inclusão
Segundo o Banco Central, o avanço dos canais digitais acompanha naturalmente a redução da rede física no país. A Febraban reforça que internet banking e aplicativos já concentram a maior parte das operações, oferecendo praticidade, segurança e autonomia ao cliente, além de funcionamento ininterrupto 24 horas por dia. A federação ainda destaca investimentos anuais de aproximadamente R$ 5 bilhões em tecnologia da informação voltada à segurança, além de campanhas de conscientização contra fraudes.
Enquanto Paiva defende a manutenção de uma rede mínima de agências, especialmente em cidades médias e pequenas, e maior regulação para garantir inclusão financeira, a Febraban afirma que o setor mantém compromisso com a inclusão através da digitalização, ampliação do crédito, educação financeira e iniciativas de autorregulação voltadas a clientes mais vulneráveis.
O protesto de bancários em agosto de 2025 contra a política de demissões e fechamento de agências em Piracicaba ilustra a tensão entre modernização tecnológica e direitos trabalhistas e de atendimento ao público. A transformação do setor bancário continua gerando debates acalorados sobre como equilibrar eficiência digital com inclusão financeira e preservação de empregos.



